Quando criei o blog, o meu objetivo era que minhas produções fossem vistas, sejam elas textuais ou dramáticas, logo depois agreguei o interesse de relatar minhas viagens pelo mundo. Colocar uma mochila nas costas e sair sozinho exposto a qualquer sorte é uma aventura que me trás adrenalina, superação, auto suficiência, conhecimento cultural, soma social… Faz-me sentir vivo. E quando se é jovem o que mais se quer é praticar o verbo viver. Mas a vida tem lá suas obrigações que muitas vezes nos impede de fazer o que queremos: rotina, trabalho ingrato, dinheiro. Devido a essas limitações, não é raro viver de forma contrária ao nosso querer.

É mais ou menos sobre o parágrafo acima que fala “127 Horas”, filme indicado a seis categorias ao Oscar 2011. O diretor Danny Boyle, vencedor em 2009 por “Quem Quer Ser um Milionário”?”, nos apresenta Aron (James Franco), um jovem simpático e aventureiro que vai passar mais um final de semana explorando o Grand Canyon. Tudo ocorre normalmente, até que uma pedra cai prendendo seu braço numa fenda, apartir de então o filme retrata as tais 127 horas em que o rapaz passa isolado nessa complicada situação de sobrevivência.

Com uma sinopse simples, Danny e James provam que mais importante que a história é a forma como esta será contada.

Os créditos iniciais são apresentados com a tela dividida em três imagens de multidão, parece que o diretor tem fixação pelo tema, ou seria coincidência ter ele feito um filme na Índia? Passada a divisão da tela, o protagonista entra em ação equipado com tudo que tem direito para sua odisséia homérica. Com um plano aberto de todo o Grand Canyon, o mundo parece estar ao alcance do personagem e também do espectador. A sensação transmitida é a de máxima liberdade, tanta, que cheguei a desejar estar no lugar daquele moço descolado com uma ideia na cabeça, a vida na mochila e um oceano de possibilidades. Resumindo: Forever Young. Clichê? Sim, porém na medida exata.

Logo no início de sua aventura, ele encontra duas outras esportistas perdidas com as quais faz amizade sem maiores envolvimentos, até porque a sina de qualquer mochileiro é essa: conhecer inúmeras pessoas inesquecíveis que não voltará a ver. Triste e verdadeiro. Mais uma vez dá vontade de ser ele, aquele tipo singelo que faz sucesso com as mulheres sem esforço nem superficialidade exterior.

O diálogo entre ele e as meninas não decepciona, pelo contrário, temia por frases muito pseudo-intelectuais-engraçadinhas, coisa que não acontece.

Quando fica preso na pedra e as 127 horas começam a rodar, esperei por ironias exageradas tipicamente americanas, não houve. Em nenhum momento em seu suplício, ele se fez de herói positivista, pecado cometido em quase todos os filmes de superação e sobrevivência. Chorou, gritou, xingou e teve até vontade de se masturbar, numa cena em que reflete toda a sua angústia, devaneio e humanidade

Após o isolamento, os planos se tornam cada vez mais fechados, mostrando o apertado cilindro de água, o funcionamento da filmadora e até o canal urinário.

James e as meninas, típico encontro de mochileiros.

Chego a conclusão que o interesse de Danny não é a multidão e sim a antítese, voltando para “Quem Quer Ser um Milionário?” podemos perceber isto em Jamal que se sente sozinho mesmo vivendo num país superpopuloso.

Em 127 HORAS, o contraste entre solidão e multidão é mais explícito. Apesar de Aron poder conhecer pessoas do mundo todo, ele não permite se envolver e é durante o seu martírio que se dá conta que em toda a sua vida estava caminhando para a solidão, só que a multidão ao seu redor não lhe deixava perceber.

Sou um ceticista nato quanto a filmes de autoajuda, baseado em história real ou com a presunção de transmitir uma lição de moral que vai mudar os seus conceitos, ainda mais este que é uma adaptação do livro em que o verdadeiro Aron conta a experiência sofrida, porém tenho que confessar que me identifiquei completamente. Há muito mais tempo que 127 horas estou preso a uma pedra e sei que foram as minhas atitudes que me levaram a ela, é preciso sacrificar coisas importantes para poder me soltar.

Torço para que o filme leve quatro das seis indicações: montagem, trilha sonora, ator e melhor filme do ano. Prevejo que nas últimas horas da cerimônia haverá uma pedra no caminho.


Categorias: Cinema, Oscar

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  1. CINEMOVIEResponder

    Gostei muito do seu comentário cara. Vou dar uma conferida. Um abraço!!!