Seguindo com a série crítica sobre os filmes indicados ao Oscar 2011,  chega a hora de falar sobre “Cisne Negro” e o que se pode falar? Antes de tudo, vamos recapitular o que você provavelmente ouviu sobre o filme: passas-se numa companhia de ballet, a personagem principal é interpretada por Natalie Portman e no trailer apare ela se transformando num monstro. Agora esqueça tudo isso, termine de ler a crítica e vá assistir a esse espetáculo. Sim, é um espetáculo de bater palmas em pé.

Sem querer desmerecer aqueles que gostam de filmes musicais, cheios de dança, teatro, platéia e papagaiada, só o fato de saber que “Cisne Negro” conta a história de uma bailarina de ballet, já seria o suficiente para não querer um ingresso nem de graça. Quem não se lembra do horrível NINE no ano passado? Trauma de filmes que tenham a palavra-chave “dança” é algo que todo ser humano que se preze deveria ter.

Como se não bastasse, a protagonista também assusta, apesar de ter um rosto e um corpo lindo, Natalie Portman é uma daquelas atrizes que a gente vê por estar lá. Não que ela seja uma péssima atriz, ela faz direitinho, mas é só isso, ela tem a técnica, porém não passa disso, não transcende.

E para enterrar o filme de vez, quem vê o trailer antes deve pensar que se trata de um terror mal feito para meninas de treze anos com medo até mesmo da diretora da escola.

A surpresa ao assistir é realmente grande. “Cisne Negro” retrata da maneira mais interessante possível o cotidiano de uma companhia de ballet, onde a bailarina principal, Nina (Natalie Portman), terá que dançar dois papéis no teatro, o cisne branco e o cisne negro, que na montagem são irmãs gêmeas, a boa e a má, resumindo: Paola e Paulina. Para o branco ela é perfeita, mas na hora de encorporar o negro ela não tem a mesma habilidade.

Como diz o seu professor e diretor da companhia (Vicente Cassel), ela não dança com paixão, não fascina, tem a técnica, mas não transcede. Já leu isso antes? Sim. Natalie parece que projetou sua limitação cinematográfica na de sua personagem, talvez por isso o papel de menina certinha, esforçada, porém sem sal e nem pimenta caiu como uma luva.

Thomas, o professor, tenta de todas as formas adicionar a ela um pouco de sedução, de audácia e é a partir daí que o conflito entre ser politicamente correta ou incorreta se acentua transformando o filme em algo tão psicologicamente complexo, orgânico e bonito que os dois minutos do trailler de cinema não foram capazes de absolver.

Natalie e Vicent em cena do filme.

O processo de mudança da menina boa para a menina má é tão lento, tão demorado e tão crível que é justamente aí que se encontra o mérito de Natalie, até mesmo nos momentos em que ela se comporta de forma ordinária com a mãe ou interpretando o cisne negro, é possível notar que ainda ali há um resquício de algo que foi moldado, conquistado e não somente um comportamento já existente, como outra atriz talvez teria feito. Afinal de contas, aqui não se trata de duas personagens distintas, e sim da mesma pessoa tendo que demonstrar duas índoles diferentes conforme a hora.

Para um papel dessa dificuldade, eu nunca que pensaria numa atriz água com açucar como Natalie. Mesmo tendo feito nada mais que o esperado no maravilhoso filme espanhol OS “Fantasma de Goya” e feito a verdadeira Ana Bolena se recontorcer no túmulo com a péssima atuação em “A Outra”, o diretor Darren Aronofsky comrpou o desafio. Vale lembrar que ele é nada mais e nada menos que o mesmo que dirigiu “Réquiem para um Sonho”e é aqui que tudo se explica.

Darren não é um diretor comum, ele está muito acima da média em sua genialidade. Dos créditos iniciais aos finais, o filme vai crescendo como se fosse um número de dança artística que sempre termina com um Gran Finale, uma coerência no decorrer do roteiro que não se vê com frequência. O diretor soube dosar, levar, conduzir o enredo, os atores e a montagem de uma forma que só poderia findar realmente com aplausos loucos da platéia em delírio.

Vincent Cassel que é um ator francês e que faz cinema no mundo todo, inclusive já fez o brasileiro e esplêndido “À Deriva”, mostrou mais uma vez ao interpretar o professor de ballet, a sua atuação cheia de classe, finesse.

Winona Ryder também está no filme e a direção de Darren também fez muito bem a ela, tão bem, que eu só a reconheci quando li seu nome nos créditos finais, falando nisso, a arte gráfica dos créditos, que muitos nem dão importância, é bárbara ao ponto de deixar o espectador assistir vidrado até o último nome do casting.

Nunca em my life eu diria que Natalie Portman iria ganhar um Oscar, mas agora mordo a língua e até mesmo chego a torcer para ela, afinal de contas duvido muito que ela terá outra oportunidade como essa.

“Cisne Negro” deve ser assistido nos cinemas do Brasil com a mesma preparação que se deve ter ao assistir um grande evento: bem sentado, concentrado e descansado para poder aplaudir com a força que um espetáculo merece.

Comercial do filme para a TV, melhor que o trailler de cinema.


Categorias: Cinema, Oscar

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