Em julho de 2010, quando usufruía de todas as lindas cidades da Europa, os cartazes colossais de “Inception”me chamaram a atenção, tanto que em Madrid até tirei uma foto da publicidade do filme no meio da Puerta del Sol.

Divulgação em Madri.

Apesar de toda divulgação e burburinho que o filme provocou desde o tempo em que eu mochilava no Primeiro Mundo, confesso que o que me fez realmente ter interesse em assistí-lo foi apenas um: relembrar as ruas em que eu andei em Paris.

Realmente é um motivo muito superficial para alguém que se diz cinéfilo, porém pense comigo: o que a atuação de Leonardo Dicaprio tem de tão especial para me fazer comprar um ingresso? Qual é a emoção de ver Marion Cortillat interpretando mais uma coadjuvante/figurante de luxo no cinema americano? Ela que é uma atriz inominável, dona da melhor atuação de todos os tempos por Piaf, tendo que se contentar com mais uma personagem imigrante pela terceira vez.

O diretor Christopher Nolan, apesar de bons trabalhos como “Amnésia” e “Batman”, não é exatamente um diretor que me cativou ao ponto de segui-lo, assim como eu faço com Almodóvar, Woody Allen, Tarantino e Iñarritú.

Então sim, fui assisti apenas pelas locações parisienses. E fiquei muito feliz em rever o mesmo caminho que eu e a minha melhor amiga fizemos sendo refeito pela Ellen Page em uma das cenas.

Mesmo sem ter nenhuma expectativa, “A Origem” me surpreendeu positivamente, não tanto como “Cisne Negro”, mas é uma boa obra, a começar pela beleza visual que Nolan conduz com uma maestria de encantar e enfeitiçar qualquer olho humano. Os efeitos visuais realmente nos dão a impressão de estarmos num sonho e é justamente sobre este tema que o filme trata.

Cobb (Leonardo) trabalha com segurança de subconscientes, o que é isso? Ele e mais algumas pessoas têm a capacidade de induzir a pessoa ao sono, entrar no sonho do indivíduo e assim descobrir segredos, retirar ideias, mudar opiniões. No mundo capitalista de hoje, é claro que tal habilidade começaria a ser usada como um serviço particular. Um rico empresário contrata Cobb para entrar no sonho de seu concorrente, porém o que ele quer não é tirar uma ideia e sim introduzir. Sabe-se lá porquê, é mais fácil subtrair uma ideia do que adicioná-la.

Mesmo assim, Cobb aceita o desafio, pois com o dinheiro deste serviço poderá voltar aos braços dos seus filhos, os quais não vê desde a morte misteriosa de sua esposa vivida por Marion.

Ele e sua equipe formam o plano do sonho, depois o colocam em prática, mas como é um sonho, coisas inesperadas acontecem e é nesse trilho que o filme passa a correr.

O argumento do roteiro é tão incomum que se torna até difícil explicar, é algo para acompanhar com muita concentração, exige bastante do espectador, tem muita reviravolta, muita desautomatização, ou seja, tudo que um ótimo roteiro orignal deve ter. Assim sendo, com a dobradinha de outro: direção e roteiro, “A Origem” merece ser visto, discutido, pensado e até mesmo tido como referência para os próximos filmes de ficção-científica que virão.

Até aí tá tudo bem, tá tudo lindo, como diria Caetano Veloso deitado em sua rede debaixo de algum coqueiro na Bahia. Pero, há algo que não chega a diminuir o poder do filme, mas que o torna um pouco menos poderoso. Existe o modo de expressão e o modo de conteúdo, creio que já disse isso antes aqui no blog. O modo de conteúdo é a história em si, o enredo, a temática, a estrutura, já o modo de expressão no cinema também diz respeito à atuação, os dois modos são importantes, porém é possível ver um filme em que a história é ultraclichê e mesmo assim ele se sobressai devido à atuação, no entanto é mais difícil uma história superoriginal e interessante conseguir se sobressair tendo atuações medianas.

Leonardo e Marion em cena.

Todos os atores em “A Origem” estão razoavelmente bem, exceto Leonardo Dicaprio que continua com a mesma cara já vista poucos meses antes em “A Ilha do Medo”. O engraçado é que depois de “Titanic”, Dicaprio subiu a um status em que ele pode escolher no que quer trabalhar e nisso tenho que tirar o chapéu, ele escolhe bem, nunca vi um filme dele em que o enredo não fosse bom, a única coisa morna continua sendo ele.

Em algumas películas ele até que demonstra um desempenho melhor, mas nessas suas duas últimas, além de bastante regular, ele está exatamente igual. Deve ser porque ambos os personagens sofrem a negação da morte da esposa (isso não é spoiler), então ele pensou em reciclar o mesmo conceito e repetiu a dose de gosto duvidoso.

Não à toa, apesar de tantas indicações ao Oscar, “A Origem” não tem ninguém nas categorias melhor ator ou atriz, seja coadjuvante ou não. E se não tem, é porque os coadjuvantes foram tratados o tempo todo como simples escadas. Dentro do que lhe é possível, Marion mais uma vez mostra que facilmente ganharia outra estatueta caso sua personagem tivesse outra utilidade além de servir para Leonardo poder brilhar nas cenas dramáticas e o pior é que mesmo ela dando o gancho, ele continua mais gelado que Jack nas profundezas do mar e com menos luz que um pisca-pisca de 1,99.

Ellen Page e Joseph Gordon-Levitt continuam simpáticos, mas infelizmente serviram somente como apoio ao egoísta dos holofotes, ambos foram usados como suporte VIP, ela por “Juno” e ele pelo incrível “500 Dias com Ela”.

“A Origem” é um poderoso filme que investiu num herói sem força e é por causa desse mal investimento que possivelmente não se consagrará como o melhor do ano. Foi por pouco. Nolan já pode cantar: sonho lindo que se foi…


Categorias: Cinema, Espanha, Oscar

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