Na década de 90, numa época em que os filmes dos Trapalhões eram esperados com ansiedade pelos habitantes da minha terra natal, havia uma sessão na pequena locadora da cidade destinada aos filmes de Velho Oeste. Sabe como é, sertão, clima seco, tiros, o povo se identificava com o gênero e as fitas mais locadas eram estas.

Com o passar do tempo, os efeitos visuais do cinema americano foi chamando mais atenção e assim a prateleira do faroeste foi diminuído. Hoje, caso sejam turistas de fins de mundo, se passarem pela minha cidade poderão ver que os títulos referentes à espécie entrou em extinção, encontrando-se um ou outro na parte de clássicos, ou perdidos na de ação.

O declínio do Western foi apenas um reflexo do que aconteceu no mundo, ninguém mais produziu e muito menos assistiu, porém, eis que surge algo mais inesperado que um tiro em cima do telhado: há um filme de faroeste listado entre os dez indicados na categoria principal do Oscar neste ano.

“Bravura Indômita” dos Irmão Coen trás de volta a poeira, a rudeza e os conflitos de sangue que nossos pais costumavam assistir no auge da adolescência.

O drama por trás da saudosa fotografia é o seguinte: a geniosa menina de 14 anos, Mattie, colocou na cabeça que quer porque quer o assassino do seu pai capturado e morto. Para esta tarefa, ela contrata Rooster, um tipo velho e ranzinza com fama de durão, corajoso e habilidoso, o homem perfeito para a caça. Mesmo não querendo ser babá, a donzela que de lânguida não tem nada, impõe a ele sua presença e juntos seguem uma jornada perigosa em terreno selvagem para encontrar o malfeitor.

O filme é baseado no livro de Charles Portis, o qual já havia sido adaptado para as telonas em 1969, ou seja, material do Louvre.

Nunca gostei do Velho Oeste, até porque morava praticamente em um, mas já vi alguns in my life para saber que nem tudo é morte, pelo contrário, a carnificina geralmente é só consequência de uma problemática instigante. Não há porque menosprezar o gênero. E na lista das dúvidas, nunca se sabe o que esperar de uma produção dos Irmão Coen. Vamos para o voto de confiança.

Depois de “Matadores de Velhinhas”, que possuía um enredo aparentemente simples contado de modo distinto, os Coens vieram com “Onde os Fracos Não Têm Vez”, agraciados com o Oscar, passaram a ser acompanhados com mais atenção.

Chegou o “Queime Depois de Ler”, Brad Pitt e George Clooney interpretando papéis incomuns. A animação pelos irmãos continuou, o público os efetivaram, estava provado que a vitória da premiação máxima não fora acidente. Até que no ano seguinte lançaram “Um Homem Sério” e foi aí que a coisa ficou séria para o lado deles. A massa que haviam conquistado torceu o nariz. Segundo especulações infundadas, entre 10 espectadores 9 odiaram o filme. Faço parte dos uns, “A Serious Man” (titulo original), assim como os demais da filmografia deles, era inovador, porém um pouco além dos limites da inovação para alguns.

Jeff e Hailee, química em cena.

“Bravura Indômita” comprova o que já estava mais que evidente, a cerne dos Coens é inventar, surpreender e de novo, inovar, seja para o bem ou para o mal. O espectador pode odiar, mas é impossível negar que os filmes citados acima não o fizeram pensar, nem que fosse para tentar entender o que acabara de ver.

Com este faroeste, sem grandes ambições, pode-se rir, emocionar-se, supreender-se… Quer mais do que isso? Os diálogos por mais rudes que possam parecer são divertidos e humanos, coerentes. As atuações estão na medida certa. Jeff Bridges, que faz o xerife contratado, novamente mostra força em sua interpretação, sem floreios e com muita simpatia, apesar do perfil nada católico do personagem, ele merece figurar entre os cinco indicados a melhor ator, eu disse figurar, já que o prêmio deve ir para o Colin Firth, apesar de continuar torcendo para o James Franco por “127 Horas”.

Matt Damon está irreconhecível no bom sentido da palavra, não é o melhor ator coadjuvante do ano, mas bem que poderia ter sido indicado no lugar de Geoffrey Rush, que mesmo cativando como o fonoaudiólogo de “O Discurso do Rei”, não está tão bem como exageraram.

E por fim, a jovem que refresca toda essa quentura, Hailee Stenfeld, está indicada como melhor atriz coadjuvante, mesmo sendo ela, ao meu ver, a protagonista. Provavelmente não havia mais vaga para a categoria principal e a jogaram na secundária, tudo bem, o importante é que está lá como manequim na vitrine.

Resumo da receita: de um abacaxi extraíram um delicioso suco que deve ser tomado sem medo e preconceitos. Não é só por simpatia da academia que Joel e Ethan Coen estão concorrendo. “Bravura Indômita”, talvez não mereça ganhar, porém há total sentido nas indicações.


Categorias: Cinema, Oscar

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