O Oscar sempre indicava na categoria de melhor filme, geralmente, aqueles com muita carga dramática, ou recordista de bilheteria. Com a mudança de cinco indicados para dez, é possível adicionar animações e obras mais leves.

“Minhas Mães e Meu Pai”, dirigido por Lisa Cholodenko, é uma dessas comédias dramáticas leves, as chamadas dramédias, que talvez não estaria concorrendo à estatueta de melhor filme se não houvesse tido o acréscimo de vagas. Especulações a parte, ele merece estar lá.

Cartaz do filme.

Nic (Annette Bening) e Jules (Juliane Moore) formam um casal lésbico, a primeira tem uma filha de dezoito anos e a segunda um filho de quinze, ambos concebidos por inseminação artificial, sendo os dois do mesmo doador de sêmen.

Apesar das duas problemáticas apresentadas até aqui, a família é totalmente normal, o verdadeiro drama começa a se desenrolar quando a primogênita a pedido do irmão entra em contato com o doador, o pai riponga e natureba vivido perfeitamente por Mark Ruffalo.

Como não poderia deixar de ser, a rotina familiar começa a mudar com a presença deste elemento, para alguns membros a mudança é positiva e para outros super negativa.

Almoço em família. Normalidade dentro do incomum.

Além das atuações serem de uma grandiosidade maior que a exigência dos personagens, os diálogos são impecáveis, engraçados e reais ao mesmo tempo, combinação dificílima em dramédia americana.

Da Annette no papel de leoa-mor só é possível dizer que ela vende, empresta e dá segurança ao telespectador. Tanto ela quanto Juliane Moore, ao meu ver, souberam dosar magistralmente os trejeitos masculinos de uma lésbica sem deixá-la estereotipada.

Os filhos adolescentes também fizeram o dever de casa, estão afinados. A Mia Wasikowsca, a Alice de Tim Burton, mostrou como irmã mais velha algo bem mais palpável que a sua insólita atuação no país das maravilhas, que de maravilhoso somente o nome.

Porém, eis aqui uma surpresa até mesmo para mim, diante das duas magnificas atrizes principais, Mark Ruffalo consegiu um feito: destacou-se. Poderia ter sido apenas mais um solteirão quarentão do tipo chamorso, paz e amor, naturalista, mas o que Mark fez com o seu tão simplório personagem foi um trabalho tão bem arquitetado que é possível conhecer o passado daquele homem através do sorriso, do andar ou até mesmo de uma singela nuance facial.

É uma prova de que não existe personagem ruim e sim disponibilidade de entrega do ator. Mesmo em papéis densos, como o do médico em Ensaio Sobre a Cegueira, Mark ainda não havia transcendido da forma como fez neste que poderia ter sido um mero coadjuvante, até porque o papel não pedia mais do que isso. E este é um baita mérito para o Oscar lhe ser entregue, pena que Christian Bale, de O Vencedor, também está igualmente colossal na disputa.

O roteiro coerente, gracioso e original carimba o selo de qualidade do produto. A filosofia do Menos é Mais se encaixa e explica o porquê do filme ser tão bom.
Caso a academia queira premiar de fato algo leve uma vez na vida, chegou o momento, mas se a intensidade dramática ou mercantil ainda estiver com força total, tudo bem, “Minhas Mães e Meu Pai” já teve o seu valor reconhecido.

A seguir, uma das tantas cenas espetaculares do filme. Juliane Moore num monólogo que resume um dos temas abordados: casamento. Através do trecho, pode-se deduzir alguns spoilers, então assista consciente. Vale a pena para se ter uma ideia da ótima atuação de Annette que concorre na categoria de melhor atriz, com reais chances de ganhar. E mesmo sem concorrer desta vez, é sempre prazeroso ver a Juliane em ação.


Categorias: Cinema, Oscar

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