Ela era linda, sorridente e amável. Não havia ninguém naquele centro de idiomas que não a conhecia. Saiu do Japão e chegou a Buenos Aires para aprender espanhol. Nível 1: adaptação. Nível 2: conhecimento… Cada nível durava um mês. Os professores já sabiam do seu passado, seus colegas a acompanhavam no presente e o futuro provavelmente nas mãos de Deus.

Substantivos, pronomes possessivos, conectores temporais… Começou a escrever melhor, diminuiu o acento japonês: Hola, qué tal? Absolveu o acento porteño: Yo estoy muy bien! E encontrou o amor. De quem? Un buen argentino.

Estudava, namorava e passeava por esse país estrangeiro que lhe encantava. Chegou ao nível 8, quase um ano na escola, já era parte da mobília.

No fim de fevereiro a festa acabou, seu pai lhe chamou: Volte pro Japão! Foi saudade do coração. Mas ela não queria partir, pois faltavam mais dois níveis para concluir, faltava decidir como aquela relação iria acabar… Faltava vontade de voltar.

De certo a mãe chorava ao telefone: a América do Sul é perigosa, vem pra casa. Mais pressão: somos os seus pais. Teve que dizer hasta luego, não diria adeus, pois talvez um dia retornasse. A esperança só morre quando o desespero nasce.

E lá se foi para a terra do Jaspion, dos inteligentes, dos robôs… Sim, foi para a sua terra carregando sua dor de menina mimada querendo fazer o seu querer. Poucos dias depois, o tremor. Na Argentina cursou até o nível 8 de espanhol, no Japão presenciou o nível 8.3 da escala richter. Y qué pasó después? No lo sé.

No Brasil, Fátima anunciou os primeiros trezentos mortos. Tudo tremeu, até mesmo o coração dos que assistiram as terríveis cenas, sentimos pena. Olha a onda! Parecia filme, necessitamos óculos 3D, o ingresso é de graça e o espetáculo é sem graça. Tsunami, quem salvará nossos filhos?

Barcos se chocam, estradas se abrem, pessoas morrem e perguntas explodem: onde está Deus? Questione aos que sobreviveram. Por que passamos por isso? O correto seria perguntar: Para quê? Propósito, profecia, aprendizado… Busquem as respostas.

Somos terremotos, tsunamis para os outros, cada um com sua placa tectônica. Pensem um pouco. Dessa vez foi lá que tudo foi arrastado e nós ficamos arrasados. Oremos pelos tigres, pois não estamos livres. Autosuficiência não existe.

O namorado, os amigos e os professores de Buenos Aires ainda esperam por notícias dela, até agora nada, tudo que se sabe é sobre a devastação nos campos, nas cidades e no nosso coração.


Categorias: Crônicas, Literatura

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