O professor de geografia foi dormir às duas da manhã preparando aula, corrigindo prova e formulando exercícios. A professora de matemática acordou às seis horas para encarar a multiplicação de sua carga horária, dividiu seus bens com o marido que lhe havia pedido o divórcio, subtraiu os momentos de felicidade e somou-se aos proletários invisíveis. A diretora tomou seu tarja preta logo após sentar à sua mesa.

Quem faltava chegar? O futuro desempregado se aproximava tapando o bocejo com o caderno de poucas matérias. A futura cartomante de araque suspirava adentrando o portão pichado com figuras obscenas e enquanto isso o futuro traficante já sentado na carteira riscava o livro didático de qualidade inferior. O terror iria começar.

Bateu o sinal, bateu a preguiça e a tristeza. Tudo era previsto. Luz. Os alunos fingem que foram aprender. Câmera. Os professores fingem que foram ensinar. Ação. O governo finge que o Brasil tem uma ótima educação.

Os alunos não entendem de filosofia e nem de trigonometria, mas sentem a antipatia, o caso aqui é o completo descaso. O engraçado é que ainda recriminam o pobre professor, dele também é a culpa do efeito estufa. Mesmo trabalhando muito e ganhando pouco, exigi-se nada menos que a santidade. Que engulam os desaforos, a desvalorização e a vida de cão. Bolinha de papel até o Serra recebeu e não morreu, então não custa nada ser ainda mais humilhado, afinal de contas é para isso que servem os intelectuais: fazer contenção social.

Em trinta metros quadrados estão sessenta futuros desgraçados na flor da idade, confusos e reclusos na margem. Eles não sabem quem foi Voltaire, mas também não são loucos, conseguem perceber que da cultura lhe é dada apenas a esmola, que do conhecimento somente os farelos. Para quê estudar? Algum professor até tenta remar contra a corrente de lixo e ensinar algo, mas no final já sabemos que a progressão continuada continuará sua regressão a favor do complô governamental rumo à alienação. Plim plim!

Ao guerreiro professor cabe se render. Para quê lutar se a nota final será estuprada? No conselho de classe o aluno quatro vírgula sete passará sem saber quanto é sete mais quatro. Para quê reprovar? Faltaram apenas três décimos para alcançar a média da mediocridade. É o suficiente para pelo menos ter algum futuro duro.

O mundo é uma selva, a casa é uma guerra e a escola pública é a prisão que tenta controlar os ânimos, porém tudo o que consegue com a sua má estrutura é intensificar a amargura. Enquanto se brinca de escolinha, os muros sufocam. Teatrinho. Os professores não passam de babás e os alunos ditos como inocentes que devem ser protegidos e ensinados são na verdade vítimas sociais que o sistema busca conter para não se revoltarem de forma violenta ou intelectual. Uma hora a bomba explode. Docentes com úlceras, estresse crônico e às vezes a explosão é externa, xingamentos, murro no aluno. Os motivos da explosão a mídia não faz questão em saber. Prende que não presta.

Discentes violentos, intimidação, quebra-quebra, pichação, tiros e às vezes suicídio.No Jornal Nacional, o Pimentel falou que a solução é dificultar o acesso às armas. Esqueceu a raiz do problema. Falta investimento. Os 60% dos professores ninguém ainda viu, já a degradação das escolas está a olhos vistos. Atentem também para alguns comércios sujos que são chamados de colégios privados.

Choremos pelos mortos e pela educação.

Eu e meus alunos do terceiro ano do colégio estadual.
Com investimentos iríamos mais longe.

Categorias: Crônicas

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  1. TestaResponder

    Me encanta lo que escribiste. Realmente sos un “literator”. Beso

  2. jessicaResponder

    Verdade professor, com investimento iriamos longe…

  3. CristianaResponder

    parabéns pelo texto!

  4. Junia PollyannaResponder

    MUITO BOM SEU TEXTO.. ME IDENTIFIQUEI SOU PROFESSORA E SÓ NÓS PARA SABERMOS O CAOS GENERALIZADO EM QUE ESTAMOS.

  5. EltonResponder

    O aluno 4,7 que não sabe quanto é 7 + 4….rs
    Perfeito.