Quarenta e sete anos depois do golpe militar no Brasil, o SBT lança a primeira novela que se passa inteiramente neste período, trata-se de “Amor e Revolução”, escrita por Tiago Santiago e com direção de Reynaldo Boury.

Para os aficionados em História e Política, o Regime Militar é um prato cheio. Muitas ideologias, muitos presidentes, conflitos, torturas, desenvolvimento de um lado, regressão de outro. É difícil explicar e saber com precisão todos os pormenores históricos dessa época. Pergunte a um vestibulando sobre a odisséia política brasileira e, com muito positivismo, provavelmente ele contará até a morte de Getúlio, alguns poderão ir até Jucelino, mas de Jango em diante saberão apenas o resumo da missa: ditadura.

No início da década de noventa, Gilberto Braga narrou de forma compacta o mesmo tema em “Anos Rebeldes”, minissérie global estrelada por Malu Mader e Cassiano Gabus Mendes. Faltou tempo e espaço para destrinchar melhor cada episódio, acontecimentos importantes eram mostrados rapidamente em recortes de jornais ao som de alguma das músicas que compunham a trilha sonora. Assim sendo, apesar de cenas bem contextualizadas como a morte da personagem de Cláudia Abreu no último capitulo, o poder documental de “Anos Rebeldes” era pequeno.

Sequência de resumos históricos da minissérie “Anos Rebeldes”:

Em entrevista a Marília Gabriela, Tiago Santiago disse que dependendo do sucesso da novela, leia-se audiência, será possível esticá-la e assim retratar até a redemocratização do país, ou seja, haverá tempo suficiente para documentar cada virgula dessa história ainda mal contada visualmente.

A proposta é empolgante, porém há duas limitações preocupantes. O SBT como se sabe passa por um momento de total descrédito do telespectador, ainda mais no que se diz respeito a teledramaturgia que sempre foi associada a dramalhões mexicanos e a remakes de qualidade duvidosa.

Referente a temida parte técnica posso dizer que superou qualquer expectativa. Acredito que todos que assistiram em algum momento devem ter duvidado que estavam sintonizados realmente no SBT. A fotografia bem feita, a temática masculina e as sequências de ação são de fato novidades no canal da Anhanguera. Todos os méritos a Reynaldo Boury, diretor ex-global de grandes sucessos como “Tieta”, “O Primo Basílio” e “Sítio do Pica-pau Amarelo”.

Tiago Santiago e Reynaldo Boury, este diretor faz milagre.

A limitação da técnica foi superada por Boury, porém ainda resta uma: o texto. Em escala de importância, Tiago Santiago figurava mais ou menos entre o vigésimo dos autores da Globo. Foi colaborador em boas novelas como Vamp, Uga Uga e autor principal de Malhação na temporada de 2001. Em 2004 foi para a Record e adaptou “A Escrava Isaura”, sucesso retumbante.

A história já era conhecida, mas isso não foi empecilho. Mesmo com Bianca Rinaldi desacreditada no papel de protagonista e o quase desconhecido Leopoldo Pacheco como Leôncio, a teledramaturgia da Barra Funda deu uma guinada sem prescedentes.

Acompanhei toda a trama, gostava muito, mas uma coisa sempre me incomodava: o texto. Quem não se lembra dos discursos explicativos do Senhorzinho Álvaro acerca das leis escravocratas, ou das explicações didáticas sobre a literatura de Camões. Vez ou outra, as personagens falavam como professores em sala de aula, não que eu seja contra haver informações úteis, o chamado merchandising social, mas Santiago parece não saber contextualizar de forma crível o discurso politicamente correto nos diálogos sem que estes pareçam copiados de uma enciclopédia.

Acredito que o principal combustível para o fenômeno da segunda versão da escrava tenha sido a magnífica interpretação de Leopoldo Pacheco que, não por acaso, regressou logo em seguida para a Globo, onde havia feito o Turco de “Um Só Coração”.

Em 2005, Tiago mais uma vez quebrou as barreiras e levou a Record a alcançar o primeiro lugar no ibope com a novela “Prova de Amor”. A história era interessante e ágil, mas o texto didático e mastigado também estava presente. Qual o motivo do sucesso? Sorte ou talento? Seria exagero dizer que talento ele não tem, mas a sorte foi maior, pois a sua concorrente era ninguém mais e ninguém menos que a pior novela já existente na face da terra, “Bang Bang”. Sem cor, sem graça, pior que novela portuguesa.

A causa do sucesso não tinha importância, o importante é que Tiago obtinha as duas maiores audiência da casa e se tornou de vez o autor número 1 do canal, tratamento de rei, supervisor de todos os outros, inclusive de Lauro Cesar Muniz.

Veio “Caminhos do Coração”, a novela dos mutantes, ele continuou reinando absoluto até Marcílio Moraes surpreender a todos com “Vidas Opostas”, a partir de então a Record parecia ter um novo queridinho, foi nesse ínterim que o melhor apresentador do Brasil, aproveitando-se do sentimento de desvalorização, contratou o autor estrela.

Sem dúvida alguma, Tiago Santiago tem muitos méritos, ele é criativo, os 600 capítulos da saga dos mutantes que o digam, porém é necessário melhorar e muito nos seus diálogos que desde o tempo da escravinha seguem quadrados, didáticos, por vezes avulsos. Quero acompanhar “Amor e Revolução” justamente para poder entender melhor os anos de chumbo, mas uma novela não pode contar um período histórico com os mesmos recursos que um livro, é preciso saber incorporar datas e acontecimentos sem parecer forçado.

Logo na primeira cena, uma militante comunista falava sobre Fidel Castro e pontuou a data em que o líder instalou a revolução em Cuba, ou seja, totalmente desnecessário, pois já que todos que estavam na reunião eram comunistas ativos, provavelmente já sabiam disso. Soa falso. As informações devem ser sutis e  coerentes à situação das personagens, o telespectador não é burro.

Tendo cuidado com o texto, posso garantir que “Amor e Revolução” irá revolucionar a teledramaturgia do SBT como A Escrava Isaura revolucionou a da Record. A ideia de trazer este tema a tona já é válida e já despertou atenções.

Outro ponto positivo é o tema da adoção, o qual não sabia que seria abordado até assistir ao primeiro capitulo. Muitos militares, principalmente aqui na argentina durante a ditadura pós-perón, adotaram filhos de pais comunistas que eles próprios mataram, hoje em dia os avós encontram esses netos, contam a eles toda a verdade e se cria uma situação complexa. Será interessantíssimo!

Entre muitas cenas boas do primeiro capitulo destaco uma em que Gabriela Alves é perseguida pelos militares em frente ao Museo do Ipiranga com a música Cálice interpretada por Pitty.

A revolução começou, agora só falta esperar para ver se haverá amor por parte do telespectador.


Categorias: Novelas, Televisão

Deixe seu comentário

Este artigo não possui comentários