Ela não tinha medo de barata, sapo e nem rato, mas queria um namorado para exterminar os que eventualmente apareciam. Ela acordava cedo, dormia tarde, falava sozinha e aos domingos sentia falta de uma companhia. Com 25 anos já havia tido cinco namorados, quatro ficantes e dois amores platônicos. O Beto bebia demais, o Gustavo sorria de menos e o Daniel era um verdadeiro pastel. Dos outros é melhor nem comentar.

Coçava a cabeça quando estava nervosa, falta de beijo. Sentia frio quando fazia 19 graus, falta de abraço. Trabalhava na CVC criando pacotes de lua de mel para casais que logo se divorciariam, despeito na mão e inveja no peito.

Formada em turismo só agora entendera o sufixo ismo. Frustrada, arrependida, mal amada. O chocolate aliviava algumas sugestivas tensões. Meio quilo de Nestlé, apesar de preferir 76 quilos de garoto loiro, malhado e amoroso. De vez em quando saia com as amigas, era paquerada por pataquadas e assim os recusavam para depois reclamar do azar e do radar que só atraía essas azias, motivo de arrelia.

Ele era calmo, magro e sensato, desejava ter mais tato com as mulheres, tanto físico como emocional. Aos 19 anos chegou a ser noivo de Amanda com a qual terminou quando descobriu que a tal Amanda não o amava. Ficou aéreo por três meses após o término, isso repercutiu no seu magistério, dava aula de inglês a crianças da rede pública, voluntário, para muito era um completo otário. Trancou letras e começou direito, pensou que feio e pobre era pedir para morrer solteiro.

Morava com os pais, ouvia Jack Johnson e colecionava cartão telefônico, tinha vontade de ter alguém para ligar às seis da tarde quando saia da faculdade para pelo menos contar como foi o dia. Antes de completar 23 anos beijou a Sabrina, ficou com a Monique e levou três foras da Juliana, amiga de infância com a qual sempre teve esperanças.

Não queria completar os 24 em casa, aproveitou que era quase o fim da faculdade e resolveu fazer uma viagem. Pesquisou no mochileiros.com, leu dicas no blog uzi por ai e postou suas dúvidas no Facebook. Faltava apenas comparar preços. Decolar, Submarino, Tam, Gol, CVC.

-CVC, boa tarde, em que posso ajudar?

-Oi, boa tarde. Eu estou querendo fazer uma viagem aos Estados Unidos, penso em New York. Há algum pacote, alguma promoção ou alguma coisa do tipo…?

-Olha só, no momento não há nenhuma promoção, ou pacote pronto, mas podemos criar. Quantos dias o senhor dispõe para a viagem?

-Ah, não. Eu só liguei para fazer uma pesquisa de preço e por desencargo de consciência porque achei que talvez tivesse alguma promoção e tal, mas assim deve ficar muito caro e eu queria uma coisa mais em conta, tô querendo ir mais de mochilão mesmo.

-Temos um pacote para o Perú que pode lhe interessar, senhor. -Ele deu risada, provavelmente a atendente estava tirando com a cara dele.

-De New York para o Perú tem muita diferença, minha filha. – O vocativo saiu sem querer e sem intenção depreciativa, porém do outro lado da linha tudo parece diferente e a atendente que estava naqueles dias não se controlou.

-Da CVC para um mochilão tem mais diferença ainda.

-Obrigado pelas informações dadas de má vontade. -Disse chocado.

-Posso lhe ajudar em mais alguma coisa, senhor? -Se não estivesse no trabalho, a pergunta teria sido composta por palavras grosseiras.

-Não. Só uma coisa: vá para o Perú, você. -Caso não fosse de natureza calma, a palavra-chave seria outra. Desligaram. Grosso(a), conceituaram a sós.

Por motivos que nem ele saberia explicar, a viagem não aconteceu. Foi mais um daqueles planos falidos que com frequência criamos e abandonamos no meio do caminho devido a falta de perseverança e excesso de desesperança diante aos tantos empecilhos impostos, inclusive pelos malditos impostos. Não é preciso ir à Bariloche para formar uma bola de neve. Depois de vinte anos de objetivos nunca concretizados é comum ser esmagado pela avalanche da depressão.

Chegou o natal, época tensa, densa e intensa. Com a frustração de não ter voado para New York foi de cara feia comprar o perú que sua mãe mandou. Já imaginava a família reunida discutindo tonterias, a televisão ligada em mais um irônico especial anual da platinada rachada e os olhos de pena em sua direção por ser o único solteiro da festa obrigatória, contraditória com ar de inquisitória. Onde está a sua namorada? Já arranjou emprego? O que fará no ano que vai começar? Que dia vai casar?

Suspirou fundo e só não achou tudo ainda pior porque tivera a sorte de encontrar o derradeiro Chester ao seu dispôr. Foi quando reparou numa moça chorando e olhando para o último perú. Que tenso, pensou.

-Está tudo bem com você…? Você está chorando porque o perú acabou? Olha, se você quiser, eu te dou… Nos outros mercados tem mais… Logo eles virão repor… -As lágrimas continuavam a cair feito as máscaras de Palocci, mas as palavras ainda estavam presas dentro dela.

-Desculpa… É que… -Explicou que passaria a última semana do ano trabalhando e não poderia ir até à cidade de sua família, desabafou que seu gato morreu, que sua calça encolheu e que seu mundo caiu. O perú descongelou no carrinho. Sentados na lanchonete do Carrefour falaram mal do natal, reclamaram do Brasil, maldizeram a sociedade e depois falaram sua idade. Quase iguais, apenas um ano e meio a mais.

Parece mentira, parece improvável, porém é a mais pura verdade. Assim se conheceram, pintou um clima,  antes do primeiro beijo descobriram que ela era a moça da CVC que o mandara para o Perú, riram, coincidências do destino? Pagaram para ver onde isto daria e também para ver o país ao qual foram juntos seis meses depois, justamente no final de semana do dia dos namorados.

De Lima a Cusco, depois Machu Picchu. No ônibus, o motorista peruano entregou um saco para cada um. Qual a serventia? Depois saberiam. Este era o dia 12 e aquela era a centésima nona curva, já não aguentavam mais, ambos vomitaram e descobriram para quê servia o saco. Sujaram-se, passaram mal, quase desmaiaram e quando se jogaram na cama desconfortável do hostel Che Lagarto em Cusco se olharam e constataram que aquele era o melhor dia dos namorados, afinal de contas nem todo o mundo tem a sorte de passar mal ao lado de quem nasceu para lhe fazer bem.

No dia seguinte foram à Machu Picchu. O lugar só não era mais lindo do que o amor entre eles.

Rogério e Andreza em Machu Picchu. Homenagem a todos os casais de namorados que viajam.

Categorias: Conto, Literatura, Perú

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  1. AnonymousResponder

    Gostei do titulo. Me fez lembrar que as nossas musica falam o tempo todo. O amor esta no Peru e na perereca.

    • Uziel MoreiraResponder

      ahahahha. Eu nem pensei nisso. rsrrsrs