Ele era de uma família classe média , estudou a vida inteira em uma boa escola particular, sim e isso não é redundância, já que existem as péssimas. O fato é que ele poderia ter passado na federal em vigésimo lugar em medicina ou em sétimo lugar em direito, mas preferiu seguir seu sonho que era ensinar o fantástico mundo da História iniciada por maiúscula. Não foi surpresa quando passou sem dificuldade no concurso público e só não pegou o primeiro lugar devido às questões utopicamente pedagógicas, até mesmo para ele que era um visionário.

Quando tomou posse no Colégio Estadual da Conchanchina percebeu de cara a guerra civil/escolar, mas não se abalou, ele estava preparado para mudar o mundo acadêmico assim como os professores de filmes americanos que ultrapassam a barreira do caos exalando amor e metodologia sem igual.

Sua animação distanciou seus colegas de trabalho. Quero ver até quando vai durar o entusiasmo do novato. Foi o que destilou o calejado professor de Química, mais venenoso que o processo de estudo da tabela periódica.

Assim que as ideias para reverter a terrível situação começaram a aflorar em sua cabeça anacrônica se dirigiu feito personagem do Walt Disney à sala da diretora que não lhe deu muita atenção, pois tinha que conter os ânimos de pais exigentes em solo escolar e frouxos no residencial. Quando a coordenadora se cansou dos pedidos de novos recursos e dos projetos mirabolantes, ela resolveu dizer o que o bom senso ainda não lhe havia permitido: professor, contente-se com os quais querem aprender. Usou ênclise para provar que não era burra e nem preguiçosa feito a maioria dos discentes. É o sistema.

Foi durante o intervalo que ouviu pela segunda vez a palavra sistema. A gordinha da professora de matemática reclamou por não poder sequer experimentar o mingau de milho da merenda escolar. Ela era tão fã de milho e teve que dá aula de pitágoras com água na boca. Estamos sendo vigiados, se um comer já vira bagunça. É o sistema. Sorte dela que a merendeira era sua amiga e guardou um copo escondido, o professor de História foi o único a testemunhar o tráfico da merenda relegada.

O que mais o incomodava de verdade é que não ensinava sequer 13% do que havia aprendido na faculdade, tentava dar aulas interessantes, porém nem sempre conseguia prepará-las. Apesar de ter uma família abastada, ele prezava por sua liberdade financeira, não queria depender dos seus pais, ainda mais tendo peitado todos para seguir seu sonho.

Em uma aula sobre Dom Pedro I, irritou-se pela primeira vez de forma pancreática ao ouvir as conversas paralelas sobre Pedro Bial e o Big Brother Brasil.  Big raiva. Pela primeira vez também uniu-se aos demais colegas na sala dos professores para falar mal dos alunos, apartir deste momento surgiu afinidade entre eles. Conversa vai e conversa vem, o professor de biologia confessou que para aturar voltou a desmatar marijuana. Agora já estava viciado. O sistema é de matar. Justificou. E ali o historiador percebeu que o sistema era uma espécie de Big Brother sádico com os discentes.

A sala dos professores era o confessionário, Boninho provavelmente era o ministro criando situações de conflitos para causar contenta. Não vou aderir à greve, eu recebi um bônus muito bom ano passado e se eu aderi não vou voltar a receber. Explicou a professora de artes feliz por finalmente poder quitar a dívida com o açougue. Proletária metida à burguesinha egoísta. Criticou a professora de português temendo o fracasso da greve.  Ela só recebeu esse bônus porque deu nota máxima para todos, eu que deveria ter ganhado. Invejou o professor de Filosofia disposto a dar dez para todos de hoje em diante e que morra o aprendizado.

Neste reallty show as provas do líder eram às avessas, ganha quem conseguir que o aluno tire a maior nota mesmo sem ter aprendido nada. Não adiantava ser autêntico, o ganhador era aquele que o público gostasse, diplomata, boa praça. Mas a pressão era intensa, ficar confinado num espaço com crianças de vozes finas gritando, salário baixo, cansaço físico… As provas de resistência sem dúvida eram as piores. Carga horária de até 50 aulas, jornada tripla, preparação de aula na madrugada, correção de prova nas janelas. Neste jogo a eliminação se chamava exoneração e cada vez mais jogadores eram exonerados.

Eu vou largar. Anunciou a professora de inglês após 13 anos de magistério, já não conseguia dormir e as úlceras estavam piores do que nunca, sem contar a terrível frustração em ter pouquíssimos alunos que aprenderam algo além do verbo to be. Não é sua culpa, você deu o seu melhor, mas é que sem recusos é impossível ensinar como gostaríamos. Consolou o historiador e ouvindo suas próprias palavras percebeu que era caso perdido, esqueceu a utopia. Era hora de se conformar: vivia num pesadelo.

No terceiro ano de trabalho, após várias tentativas vãs de melhora, ele se jogou no sofá dos professores durante o recreio. Acordou com a cabeça mudada, chega disso e daquilo. Nas férias pegou sua mochila, pegou parte do seu dinheiro guardado e foi realizar um dos seus sonhos. Viajou para a Europa, o berço da civilização. Frente ao Louvre em Paris se sentiu realizado, enfim poderia conhecer o museu dos seus sonhos, não via a hora de ver a parte egipcia. Napoleão podia ser um déspoda, mas estava perdoado só por haver trazido as esfinges, os sarcófagos. Tirando foto de tudo lembrou que não havia nenhuma com ele, então pediu em inglês para uma moça bonita de dá vertigem que lhe fizera o favor de fotografá-lo. Shure. Ela riu prestativa e ainda perguntou se queria mais. Oh, yah, please. Entre flashes, risos e perguntas típicas fizeram amizade.

__My name is Malsore. -Foram parar na grama do jardim do Louvre comendo cachorro-quente francês. Ela era da suíça, poliglota, mas o seu português era ruim, na verdade, nunca o havia estudado, só sabia falar um pouco porque já tivera antes um namorado brasileiro. Beijaram-se, pena que ele só passaria mais dois dias em Paris, lá era muito caro, sem contar que ela voltaria para o seu país. Inacreditavelmente eram feitos um para o outro e foi por isso que ela não teve medo de convidá-lo para conhecer a Suíça e ele foi. Conheceu o pai dela, homem culto, professor universitários com muitos contatos.

Surgiu a oportunidade de fazer mestrado por lá, o sogro tinha todas as informações. Então ele ficou, amou, estudou, batalhou, casou, aprendeu o alemão suíço e depois de 5 anos vivendo por lá conseguiu enfim ser professor no ensino médio militar ganhando 8 mil francos por mês. Os sonhos podem ser realizados, a felicidade existia.

O sinal tocou. O que ele fazia naquela sala dos professores? Caminhando pelos corredores até a sala viu que se tratava de um pesadelo. Com certeza comera muito chocolate antes de dormir, bem que sua amada Malsore lhe avisou. Outro culpado de estar tendo pesadelo era o frio, dezessete graus negativos era algo que ele ainda não havia se acostumado. Chegou na sala de aula com os alunos recém-chegados das olimpíadas, o cheiro de suor se misturando com a sujeira da sala, a falta de consideração latente, ele não via a hora de Malsore lhe dá um ponta pé e assim acordá-lo.

__Vamos continuar o assunto da Segunda Guerra Mundial. -Focalizou o riso de deboche, reviu o holerite vergonhoso, sentiu a pontada na cabeça devido a noite mal dorminda, o ponto gatilho nas costas aumentou evidenciando o estresse em alta. -Sentados, por favor. – O prepotente do Wilian lhe imitou. Sentia que estava prestes a acordar do pesadelo, faltava pouco para abrir os olhos.

__Professor, sua cara tá amassada feito… – Palavra desrespeitosa. Já sabia o que faltava para sair do pesadelo. Fechou o punho e deu um murro no aluno intensificador de sua degradação pessoal e profissional.

Somente quando o sangue do nariz do rapaz respingou foi que o historiador notou que não estava tendo um pesadelo, apesar da realidade ser mais dura e ficcional.

Foi preso e em cela especial ficou triste ao constatar que o presidiário com nível superior era melhor tratado que o professor, pelo menos lá havia um certo respeito por ele ter se matado queimando as pestanas.

Quando foi solto resolveu começar do zero, prestou o Enem e entrou no curso de Direito. Num dia andando pela rua se encontrou com a professora militante de português e perguntou porque ela conseguiu continuar dando aula e ele não.
__Porque que eu sou uma mártir. -Já ele definitivamente não era parente de Tiradentes.

Homenagem ao meus colegas de faculdade e a todos professores guerreiros.


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    • Uziel MoreiraResponder

      Obrigado, Ro.