Seguramos as águas, as mágoas e as lágrimas, mas quando chove fica difícil controlar a torrente de tristeza. Quando chove o céu fica escuro e a evidência da infelicidade fica clara. O som nos faz pensar, o cheiro nos faz lembrar e a espera de alguém que não vai chegar se torna mais penosa, pois ninguém quer se molhar. Quando chove a saudade inunda, a solidão esfria e a nostalgia gela o suspiro. Quem tem medo da chuva é porque sabe que muitas vezes ela machuca. Ácida. Desgasta. Quem nos salvará do ócio?

Quando chove falta energia na casa, na alma, no corpo. Desgosto. Porém se no dorso estiver apoiado o amor, tudo muda com o suor. A enchente é de beijos, a torrente é de paixão. Serôdia. Há dois, o temporal é refresco de vulcão. Quando chove é bom estar preparado, amparado, envolto em chamas que não se apagam com gotas grossas. O som se torna melodia e o cheiro fragrância. Não dá para ver a cor do céu quando se fixa apenas nos olhos de quem se ama.

A chuva rega e faz crescer aquilo que está plantado no coração. Não somos os únicos semeadores, terceiros semeiam o desconhecido. Quando chove latejam os sentimentos. Se for desespero que ninguém segure. Correndo, buscando junto com a água o rumo certo para desembocar. Se for alegria que ninguém recolha. Pulando, dançando junto aos pingos para mostrar ao mundo sua presença.

Quando chove dá vontade de tomar chocolate quente, ler Machado e de ser achado. Perdido no cobertor, o filme é triste e ninguém resiste recordar. A melancolia está no ar. A água pode servir para a pagar incêndios, mas a chuva acende o senso, a sensibilidade aumenta, tenso.

A televisão chuvisca, a vida complica e os sonhos parecem desaparecer entre as nuvens escuras, parece não haver cura. O choro faz companhia. Quando chove lá fora, a dor queima dentro. Cadê o alento?

Da janela se vê a chuva enfraquecendo, as cores voltando e uma nova história começando.

Quando pára de chover, para-se de escrever.

A chuva parou.


Categorias: Crônicas

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