Ontem pensei em tudo que poderia ter sido e não foi, hoje acordei desejando ser dois, amanhã tentarei mais uma vez esquecer o depois. Os dias às vezes passam sem ter um porquê, o coração pede um Q de você. É necessário se acostumar com o pouco, conformar-se com o nada e seguir sem amar e ser amado. Não sei até quando, carência sem fim. Por fim resolvemos não reclamar, plural para amenizar, não somos os únicos, não somos os piores.

Carência de comida na Serra Leoa, carência de paz em Gaza. Observando o exterior, aceitando a dor interior. Sigo, prossigo, vivo. Tudo agora parece melhor. Casa, roupa, carro e viagem. Risos com os amigos. Mas aí me lembro de você e o sorriso se apaga. Água de coco, tranquilidade na praia. Mas aí me lembro de você e perco a calma. Zen na aula, relaxado no intervalo. Mas aí me lembro de você e me desgarra a alma.

Carência no acordar, no dormir, o ápice é no fim da tarde. O céu escurece e não tenho sua luz, eclipse total do amor. Sentidos hibernam, sensibilidade zero, otimismo no negativo. Não chegue perto, cão raivoso, cachorro sem osso, vira-lata abandonado. Quando os mecanismos falham o corpo amolece, a ausência abate, a solidão trespassa, a raiva passa dando lugar à tristeza intensa. Carência crônica. Queria que o fim da tarde viesse com você.

Não precisava ser perfeita, tendo-me como prioridade já bastaria. O primeiro a receber o convite, o único a receber carinho, o vip da lista telefônica. Amizade é bom, cumplicidade é ótimo, amor recíproco parece ser demais. Transcendo a imaginação recriando beijos, afagos, abraços e diálogos. Desligo-me da televisão para meu canal pessoal, aquele em que você está no sofá ao meu lado, o gênero é romântico, a cena é melosa, a ação pode ser proveitosa. Ligo-me na realidade, Poeta no irônico Fantástico, eu na espetacular carência.

Vem desejo, passo vontade, vem a noite, passo pelo vale. Chateado com a pirraça do tempo, agoniado com o andar da carruagem, não há mais jeito. O que acontece é que estou carente. Do quê? De quem? De você! Vem me trazer preenchimento, contornar as falhas, acender meus sentidos. Vem ter comigo a parte de amor que o mundo lhe reservou. De minha parte, estou aqui. Fácil de me apegar, carente de te prender.


Categorias: Crônicas

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