Quando saiu a notícia de que o segundo filme com mais indicações (dez) ao Oscar 2012 era em preto e branco e mudo, o público mundial estranhou. Os filmes mudos pararam de ser produzidos no início da década de 30 com o advento da mixagem de som e imagem.

Se uma obra cinematográfica nos dias de hoje já causa ressalvas, o efeito comercialmente negativo de um mudo é ainda pior. Por mais cinema de autor e alternativo que seja, o cinema é um campo acima de tudo comercial, máxima que dificulta a compreensão dos motivos que levaram o diretor francês Michel Hazanavicius a rodar O Artista.

Como bom cinéfilo, Michel é apaixonado pelas produções pioneiras e sempre teve o desejo de filmar algo nestes moldes, obviamente foi preciso lutar contra a resistência dos estúdios que não queriam apoiar seu projeto. Não se deu por vencido e tanto tentou que numa cooperação entre França e Estados Unidos conseguiu os recursos para dar vida ao seu desacreditado filme.

O Artista conta a história de um ator da década de 20 que após a chegada do cinema falado é esquecido, perdendo assim o seu status de estrela principal para uma fã que conhecera acidentalmente.

A sinopse é simples, a narrativa é um tanto quanto previsível, porém ao invés destes fatores diminuírem a qualidade, o efeito é justamente o contrário. Sem cores, sem som, sem diálogos e sem muitas reviravoltas, o diretor se mostra o verdadeiro artista e faz com que a platéia fique sem palavras.

O protagonista Jean Dujardin preenche todos os cantos da telona com seu carisma, mesmo sem falar, ele consegue vender empatia, o que não só deixa o filme assistível, como prazeroso. A dinâmica não permite que o público reclame da falta de voz. Tudo acontece em ritmo frenético sem extirpar a profundidade das personagens, fenômeno pouco alcançado nos filmes de comédia ou ação.

Pode-se dizer que O Artista já nasceu um clássico, não por ser em preto e branco e muito menos por ser mudo, mas sim pelas várias cenas antológicas, as quais se destacam: a brincadeira da fã com o casaco do seu ídolo, o cachorro chamando o policial, os móveis sendo descobertos, o tiro no terceiro ato, entre muitas outras.

 Jean Dujardin contracenando com Uggie, o cachorro esperto.

A simplicidade aparente é passível de releituras mais complexas. Vendo além da historia, é possível chegar a outras camadas e esferas. Não é apenas sobre a queda de um artista que se trata o filme, tendo como pano de fundo a crise de 29 e a segunda revolução industrial e tecnológica, a obra aborda também o valor do velho, o sentido de utilidade do ser humano num mundo em que a tecnologia se desenvolve em alta velocidade fazendo com que o prazo de validade tanto dos objetos quanto das pessoas seja curto.

Os 96 minutos de projeção passam voando e a sensação é de querer ver mais daquilo. Nem todo cinesta tem o talento de fazer rir, emocionar e se envolver com um filme sem voz, sem cor, sem sexo, sem violência, sem adultério… Não é necessário ser apreciador de cinema para gostar e nem pseudointelectual para entender. O Artista vai deixar você, positivamente, sem palavras.


Categorias: Cinema, Oscar

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  1. Marta DantasResponder

    o filme também fala da nossa resistência a mudanças… até um quase não poder mais… realmente, sem palavras…

  2. Marta DantasResponder

    uzi, ele não se parece com o Gene Kelly?

    • UzielResponder

      Eu não tinha reparado Marta, mas agora que você falou eu percebi que parece sim. Rsrs.