Já virou clichê falar da classe C, porém é inegável o nivelamento popular que a Globo está tentando imprimir em suas produções, principalmente no carro-chefe da programação, a novela das 9. Aguinaldo Silva com a sua ótima Fina Estampa mostrou que personagens ricos com trabalhos incompreensíveis e férias em Paris não chamam a atenção das massas, objetivo-mor do folhetim.

O autor João Emanuel Carneiro seguiu os passos do veterano, deu uma moldura popular à trama enquanto o conteúdo é uma verdadeira obra-prima fazendo de Avenida Brasil a melhor novela dos últimos 8 anos.

Depois de inúmeras novelas não tão bem sucedidas pelo público e nem pela crítica, a Globo enfim parece ter acertado. Avenida Brasil é uma mistura da fórmula de Senhora do Destino, do que deu certo em A Favorita e do popularismo de Fina Estampa.

Assim como em Senhora do Destino, a trama foi dividida em duas fases. A primeira foi marcada pelo grande mal feito da vilã Carminha interpretada por Adriana Esteves, que também viveu Nazaré Tedesco quando jovem. Coincidência? Nem tanto. Genésio, papel de Tony Ramos, morreu logo após descobrir que a esposa era uma farsante da pior categoria. Zé Carlos manda lembrança.

Com a passagem de tempo e a volta de Nina ao Brasil para se vingar da madrasta, Carneiro usa do mesmo motor que guiou A Favorita, a divisão do  favoritismo entre as protagonistas. Que Carminha não presta, isso é óbvio, por outro lado, mesmo com justificativas, Nina também tem atitudes pouco heróicas conforme o conceito de Aristóteles. Ao final o que se tem são duas anti-heroínas e caberá a cada espectador escolher por quem torcer, competição geradora de repercussão.

Como se não bastasse essa estrutura já consagrada, a Globo lança Avenida numa embalagem popular, pronta para ser consumida pela tão comentada classe C. Quer prova? Kuduro numa abertura dançante fazendo referência a baile chame, futebol como pano de fundo, Flamengo – a maior torcida do Brasil – como time do protagonista, trilha sonora importada diretamente do programa Esquenta de Regina Casé. Mais classe C do que isso, somente as sitcoms apresentadas depois da novela. No entanto, esse populacho em nada desmerece Avenida Brasil que tem um conteúdo classe A.

O elenco não foi apenas bem escolhido, mas principalmente bem distribuído. O obrigatório núcleo cômico foi transferido para o cenário dos ricos e ganhou representantes de peso. Alexandre Borges, Débora Bloch, Camila Morgado e Carolina Ferraz não são humoristas, mas possuem uma técnica indiscutível, eles preenchem a tela seja com qual personagem for, desta maneira, o núcleo cômico que na maioria das vezes é visto com desdém ganha seriedade.

As três mulheres de Cadinho.

Personagens com funções bastante secundárias foram agraciadas com personalidade forte, o que lhes confere textura, ponto para o autor. Ivana poderia ser passiva à trama, servindo apenas para uma ou outra situação e no resto permanecer apagada, porém João Emanuel lhe dá cores almodovianas, fazendo ela chamar atenção seja pela cafonice, seja pela voz irritante de bebê quando se dirige ao marido. O mesmo acontece com Muricy, nas mãos de outro autor, Eliane Giardini com esta personagem talvez não passasse de uma figurante de luxo.

A química entre o casal protagonista é outro grande trunfo. Cauã Reymond parece ter atingido a maturidade após Cordel Encantado chegando aqui mais seguro de si. Débora Falabella então dispensa comentários, sua atuação está impecável. É possível notar as faíscas que surgem quando os dois estão próximos, a tensão é bem dosada e a relação é conduzida de maneira que faz o público torcer por eles, diferente dos últimos casais das nove. Pedro e Marina de Insensato Coração eram odiados, enquanto que na sucessora o grande Aguinaldo Silva perdeu a mão no relacionamento de Griselda e René.

Os diálogos são geniais, é claro que os doze primeiros capítulos são escritos com mais tempo e assim podem ser melhor trabalhados, ainda assim é espetacular a forma como João dissolveu as informações iniciais nas falas.

Houve situações forçadas, porém totalmente perdoáveis quando se trata de novela. O maior cuidado que o escritor deve ter a partir daqui atende pelo nome de Carminha. Na primeira fase, a vilã parecia ter tudo para substituir o posto de Nazaré Tedesco, porém foi perdendo força ao ser elitizada na segunda fase.

A maioria das cenas desta personagem se divide agora no seu drama de mãe preocupada e de esposa atenta aos detalhes da casa. Para que seu mal caratismo não seja esquecido, Carneiro apresenta cenas em que ela maltrata a filha verbalmente, porém isto não é o suficiente para sustentar uma vilã de peso, nem mesmo as cenas de adultério com Max, visto que Carminha se finge tão bem de santa que o telespectador chega a duvidar. E vilã boa é aquela que é ruim do princípio ao fim.

Se em A Favorita, a protagonista virou antagonista, aqui parece haver uma inversão, a má está se tornando boa através da humanização que a personagem de Adriana Esteves vem sofrendo pelo seu passado no lixão e possivelmente na cadeia, ao invés de vilã passaria a ser uma sobrevivente, o que é uma pena, já que Carminha poderia ser a grande bruxa da década.

Outra situação que é necessária ser vista com cuidado é a relação de Tufão com Monalisa, caso seja interesse do autor uní-los no final, o Silas não pode continuar sendo tão bonzinho e tão maltratado, pois o público acabará ficando ao lado do simpático personagem de Ailton Graça.

Avenida Brasil segue com tramas bem amarradas, atuações convincentes, diálogos primorosos. Uma novela classe A dentro de uma embalagem classe C. Não à toa, quando toca Cupido, de Maria Rita, a impressão que se tem é que o controle mudou de canal sozinho e estamos em alguma emissora pública. Mas não tem problema, vamos dançar kuduro?


Categorias: Novelas, Televisão

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  1. PalomaResponder

    Que coisa mais ridícula este post… É nítido que o melhor autor é o Gilberto Braga, não pelo IBOPE que é sempre relativo, pois altos numeros nem sempre é sinonimo de alta qualidade. O Gilberto tem mais tratatamento VIP na globo por ter criado novelas antológicas, como Escrava Isaura, Dancin Days, Celebridade, Paraiso Tropical que concorreu ao Emmy de melhor novela, e a tão elogiada Vale Tudo. Sempre as tramas do Gilberto são guardadas a 7 chaves. O que importa não é a audiencia e sim o retorno finaceiro, a repercussao e a popularidade. O Brasil ja parou para o ultimo capitulo de Vale Tudo, Dancin Days, Celebridade, e agora com o Joao Emanuel, que escreveu verdadeiros icones no horario das 7, Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos, e as campeãs de repercussão como A Favorita e Avenida Brasil. Não é audiencia que torna o melhor, e sim o tanto que a novela atinge o expectador, e convenhamos que Avenida Brasil conquistou muuuito mais do que Fina Estampa por ex. Essa de contar so media geral é uma furada pq, Fina Estampa teve 39 pontos sem empolgar na reta final, sempre na mesmice, ja Avenida Brasil cresceu, estrondou e conquistou o pais e chegou a 52 pontos, e com enorme repercussao, ou seja, deixou muita saudade e conquistou o Brasil, e é isso que faz de um autor, o melhor. Fazer uma novela ser mais uma a dar IBOPE é facil, o dificil é torná-la a que o povo mais amou, a favorita.