Vitor fazia aniversário em novembro e embora não gostasse de festejar, alguém sempre preparava uma frustrada festa surpresa. Quando criança a organizadora era a mãe, na adolescência os amigos e agora era a namorada que comprava o bolo.

Comemorava seus anos de vida no dia de finados, talvez por isso nunca pensara que um dia seria o seu fim. Ao completar trinta velas, deu-se conta que chegaria a hora de ser velado. E ele que já não gostava de festejar, passou a temer o dia da subtração.

Mara também não gostava de fazer aniversário. Ruim em matemática, não percebia que a soma dos anos é uma ilusão às avessas. Para ela o problema era a pressão da primavera. Dificilmente conseguia florescer igual às flores de setembro. Envelhecia na seca.

Só perdia as esperanças de comemorar feliz quando chegava o último dia de virgem e ela ainda continuava virgem de amor, de amigos e de dinheiro. A maravilha de Aurélio em seu aniversário era raridade, a maioria era de poesia: mar, ave e ilha. Imensa solidão.

Ficou para ambos complicado completar mais um ano. A idade pedindo avanço de quem está limitado pelo físico. A sociedade exigindo felicidade de quem está infeliz por estar só. O aniversário passa a ser uma dor que desatina ao ser tocado. Toca o corpo, a dúvida e o terror. Causa crise existencial, financeira, global.

Antes de mais um aniversário é preciso casar, comprar, estruturar. Reproduzir antes dos quarenta, sonhar enquanto há tempo para realizar. A ampulheta sumindo, o mundo cobrando, os aniversáriantes se desesperando. Corra que a idade vem aí. E seja muito feliz… Se puder.

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  1. UnknownResponder

    Adorei Uzi, tenho orgulho de ter um amigo tão bom escritor!!! Bjos

  2. laurenResponder

    velho… velho… velhoooooooooooooooooooooo!! Quase entrei na deprê agora!Só você mesmo pra causar essa reação apenas com palavras bem usadas. E o pior dessa cronica é que é verdade, fazer o quê?? Vou continuar com minha soma às avessas, torcendo para quê na proxima primavera eu tenha novidades pra contar =DD Como sempre texo ótimo!! Gostoso de lê, divertido e com acidez na medida, como é peculiar no ‘estilo uziélico’… amei!!

    Ps.: é sempre um prazer lê seus textos!!