Como bem lembrou Antônio Cândido no seu ensaio “O Direito à Literatura”, depois que Mário de Andrade chefiou o Ministério da Cultura de São Paulo, o município se tornou de vez a capital das artes, superando o Rio de Janeiro. Quase cem anos depois do legado deixado por Mário, São Paulo continua sendo um mar de opções culturais para os moradores e também para os turistas.

O turismo cultural desta metrópole vai dos maiores eventos nacionais até os inúmeros museus, tem para todos os gostos. Algo que me impressiona é que ao contrário da maioria das cidades turísticas do Brasil, São Paulo não limita sua arte aos turistas, há um incentivo concreto para a população fazer uso. No Centro Cultural São Paulo, situado no metrô Vergueiro, é possível ver moradores de rua usufruindo da biblioteca, lendo revistas, gibis e até Eça de Queirós. Sem exageros, porque eu já vi. Lá também há filmes com entrada por apenas um real, peças teatrais de qualidade por 10 reais e eventos musicais de graça. No “Natal e Reveillón” (clique aqui para ler o post)“, Nana Caymmi foi a convidada de honra.

Perto do Centro Cultural, no início da Avenida Paulista tem a Casa das Rosas, espaço dedicado às artes, onde é possível assistir a saraus, recitais e também fazer cursos, eu mesmo participei de várias oficinas sobre literatura contemporânea, com direito a certificado, tudo de graça.

Casa das Rosas.

Ainda na Av. Paulista, um quarteirão depois da Casa das Rosas, o Itaú Cultural é uma parada obrigatória, já que a cada mês há uma exposição diferente no espaço. Também é bom pedir à recepção a programação do mês, pois sempre há palestras excepcionais. Já participei de um congresso de Crítica Literária com palestrantes especiais.

Exposição ‘Centenário Nelson Rodrigues’ no Itaú Cultural.

Cem metros do Itaú Cultural é possível tomar o metrô Brigadeiro e de lá ir até a Estação da Luz, onde estão os dois melhores museus de São Paulo, na minha opinião: o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca.
O Museu da Língua Portuguesa está ao lado da Estação da Luz e ao contrário do que se possa pensar, não se trata de um espaço para aprender gramática. O museu é bonito e interativo, todos os meses é montada uma exposição de um autor da literatura brasileira, além de um espaço audiovisual que mostra a história do Brasil através de vídeos. Certa vez fui à exposição de Clarice Linspector e da última vez em que estive lá juntamente com minha amiga Marcela, uma argentina que me deu aulas em “Buenos Aires – Mora e Estudar” (clique aqui para ler o post), a exposição era sobre o escritor com o qual comecei a postagem: Mário de Andrade. A entrada no museu custa seis reais a inteira e três reais para estudantes, professores e idosos.

Eu na foto com Mário de Andrade, exposição do museu

Atravessando a faixa de pedestres, logo em frente está a Pinacoteca, uma espécie de museu que não precisa entender da História da Arte para gostar, pois é um lugar bonito, cheio de quadros interessantes tanto para os entendedores quanto para os leigos. A entrada também custa seis reais e a meia três. É um ótimo lugar para tirar fotos, tanto dentro como no jardim ao lado.
Espelho no teto. Eu e Marcela deitados no chão tentando tirar a foto.



Quadro que mais gosto da Pinacoteca: La Hacedora de Angeles (A Fazedora de Anjos). No primeiroquadro uma mulher solteira da alta sociedade descobre que está grávida, no segundo ela vai na casa de uma senhora que faz anjos, no terceiro a senhora coloca o bebê no forno e ele vira anjo.    
Espelhos da Pinacoteca.

O museu com a entrada mais cara é o MASP, que fica na Avenida Paulista, na estação de metrô Trianon-Masp. Não é permitido tirar fotos dentro dele, tudo porque as obras que lá estão são mais sensíveis e também mais famosas. É um museu que agrada mais aos que entendem da arte da pintura, para quem sabe quem foi Modigliani.
Eu e Marcela em frente ao MASP.

Para quem gosta de cultura também indico a Biblioteca Mário de Andrade, sempre ele, situada próximo ao metrô República. Durante o aniversário da cidade no mês de janeiro, a Biblioteca ganha apresentações artísticas e musicais, tudo de graça. E durante o ano inteiro é possível fazer cursos dos mais diferentes setores, desde teatro a instrumentos musicais. Os moradores da cidade podem fazer a carteirinha levando uma cópia da identidade e do comprovante de residência para poder pegar livros emprestados por até quinze dias.

Entrada da Biblioteca Mário de Andrade.

No mês de abril tem a Virada Cultural, quase um final de semana inteiro promovendo todo o tipo de arte sem parar, nem mesmo durante a madrugada. Teatro, música, gastronomia, mágica e… Balada. Quiseram popularizar a Virada com baladinhas e o resultado foi a multidão que apareceu e ocasionou a confusão no Viaduto do Chá por causa da 300 galinhadas oferecidas pelo chefe de cozinha mais respeitado no Brasil: Alex Atala. Tirando a pancadaria que teve e a qual eu tive que sair correndo juntamente com Bruna, uma moça que conheci durante o evento, a Virada Cultural 2012 foi muito boa.

Começou com uma peça de Denise Fraga ao ar livre, em frente ao Pátio do Colégio, primeira construção da cidade. A peça era uma comédia adolescente divertida com um texto despretensioso, o destaque ficou mesmo por conta da Denise Fraga, que por mais que eu soubesse que era uma boa atriz, conseguiu me surpreender, pois teatro na rua não é fácil e ela deu um banho de interpretação. Abaixo, as fotos da apresentação.

Assim que terminou a peça no Pátio do Colégio, fui para a Praça da Sé que fica logo adiante, em frente a Igreja da Sé foi feito um palco para os humoristas. O primeiro foi Tom Cavalcante que fez piadas por meia hora, em seguida vieram outros comediantes, os mais esperados foram Danilo Gentili e Rafinha Bastos. Apesar do som baixo, Tom se saiu bem. Interpretou suas personagens, inclusive a Jarilene, a que eu mais gosto. Já a apresentação do Danilo Gentili foi um fiasco, ele não soube controlar o nervosismo perante a um público tão diversificado e numeroso.

Apresentação de Tom Cavalcante em frente a Catedral da Sé.

Eu e Bruna deixamos os humoristas e fomos andar pelo circuito da Virada, fomos até a Praça da República e ao chegar lá quem estava cantando era Gretchen, então não permanecemos e tomamos a direção do Viaduto do Chá atrás das desejadas galinhadas. Antes passamos pelo Teatro Municipal, onde estava havendo apresentações musicais de nível, como por exemplo: Zezé Motta. E logo em seguida, chegamos ao Vale do Anhangabaú, onde pouco tempo depois tivemos que sair correndo assustados com a confusão das galinhadas, fotos respectivas.

Em agosto eis que chega a famosa Bienal e este foi um dos eventos, dos quais participei em São Paulo, que eu mais gostei. Além de livros com ótimos descontos, principalmente para professores, houveram palestras muito interessantes.

No stand “Telas e Palcos”, que contou com a curadoria do crítico de cinema Rubens Edward Filho, temas importantes do cinema e da televisão foram discutidos. Numa das palestras sobre as heroínas da TV, Nicette Bruno, Miriam Mehler, Vida Alves, entre outras contaram sobre suas trajetórias. E tive a oportunidade de perguntar ao Rubens Edward Filho sobre a adaptação que ele fez de “Éramos Seis” para o SBT. Sincero, ele respondeu que não escreveu mais novelas porque não voltou a ser convidado e que trabalhar com Silvio Santos era complicado, pois o dono do baú queria mudar a novela colocando mais crianças e impedindo que os filhos de Lola crescessem, já que a novela estava com boa audiência.

Heroínas da TV no “Telas e Palcos”

Miriam Mehler. Sempre achei essa atriz engraçada na TV. E na vida real, ela é bastante simpática.

Eu e Rubens Edward Filho. Pareceu-me humilde. Gostei dele como pessoa.

É impossível ir à Bienal apenas um dia, então voltei e desta vez levei comigo ninguém mais e ninguém menos que Alhandra Andrini. Para quem não sabe quem é a figura, assista a peça que ela fez comigo: “A MAIOR FLOR DO MUNDO (clique aqui para ver)”. Juntos fomos à palestra da autora de novelas e minisséries que mais gosto: Maria Adelaide Amaral. Ela falou sobre a vida de Tarsila do Amaral, na verdade, narrou praticamente toda a minissérie “UM SÓ CORAÇÃO (clique aqui para ler)”. Como palestrante, eu dou um zero redondo a ela, parecia que estava com pressa para ir embora. Eu ainda tive a cara de pau de fazer duas perguntas sobre a minissérie “Os Maias”, ela fugiu um pouco do questionamento e respondeu coisas que não perguntei, falou que a minissérie foi um fracasso de audiência e que diferente de “A Casa das Sete Mulheres”, a adaptação do livro de Eça não foi bem recebida. Mesmo não sendo um poço de simpatia, a verdade tem que ser dita: ela é a autora que escreveu as melhores coisas na Globo até hoje.

Alhandra, Maria Adelaide Amaral e eu.

Depois deste post imenso, acredito que o maior já feito no blog, sinto-me o rei dos tronos por morar numa cidade com tanta arte e cultura.

Games of Thrones na Bienal.

Categorias: Brasil, São Paulo, teatro

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