Jonathan Culler examina de maneira gradativa cinco pontos acerca da questão: o que faz um texto ser considerado literário? A resposta, como esperado, não é das mais simples, já que na literatura as linhas são tênues, o que impede definições precisas.

O primeiro ponto apresentado é o mais conhecido, (1) o enfoque do trabalho com a linguagem. A explicação deste ponto é recorrente no discurso do senso comum, porém, Culler problematiza ao afirmar que a organização da linguagem não é o suficiente para creditar um texto como literário, já que se pode encontrar em outros gêneros textuais, mesmo nos acadêmicos, marcas de uma linguagem trabalhada.

Como desdobramento deste, o ponto 2 atenta para a integração da linguagem, na qual a complexa relação de elementos e componentes – como o som, sentido, gramática, temática – fortalecem o caráter literário do texto. No entanto, outra vez o autor afirma a insuficiência do critério dando como exemplo os trava-linguas, que possuem a integração da linguagem, mas não são considerados literatura.

De todos, (3) a ficção no texto, parece ser o que melhor explicita a diferenciação da literatura, pois exige uma leitura de imaginação, onde nada é denotativa e as decisões são interpretativas. Curioso observar, que autores como Paulo Coelho, ainda que façam uso da ficcionalidade, sofrem resistência para que sua obra seja considerada literatura, o que fomenta a ideia de um conjunto para a questão inicial. 

Abarcando os pontos anteriores, (4) a literatura como objeto estético, apóia-se na fala de Kant para se sustentar como uma arte que tem seu fim em si mesmo, aproximando matéria e espírito para um conhecimento individual, e é por muitos não entenderem, ou não aceitarem este fator como traço de literariedade, que a educação insiste em buscar conteúdo pedagógico na literatura.

Por fim, (5) a literatura como construção intertextual ou auto-reflexiva, mostra que o texto literário é aquele que tem consciência do que é, de onde está inserido, permitindo leituras sincrônicas e diacrônicas. Estes cinco pontos não são mandamentos estanques, mas formam um conjunto funcional para o estudo das especificidades da literatura.


Categorias: Crítica Literária, Literatura

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