A cada filme que faz, o cineasta Ang Lee muda o tema, o foco e o gênero. Quem assistiu ao romântico “Razão e Sensibilidade” se assustou com a ação de “O Tigre e o Dragão”, por sua vez, os que esperaram o mesmo ritmo frenético em “O Segredo de Brokeback Mountain” se decepcionaram com a introspecção psicológica de personagens que em nada lembravam as lutadoras chinesas. Na filmografia psicodélica também há comédia, drama histórico e até super-herói de HQ.

Desta vez, Ang volta a concorrer três categorias no Globo de Ouro (Melhor Filme, Trilha Sonora e Fotografia) com uma obra que mescla espiritualidade, sobrevivência e superação. Apesar do titulo nacional, “As Aventuras de Pi” não se trata de alguém corajoso que vive em busca de adrenalina. O jovem Pi é filho do dono de um zoológico que decide ir embora da Índia levando os seus animais consigo no navio. No meio da viagem, o navio naufraga e só escapa o garoto e mais quatro sugestivos animais, de forma alegórica, cada um dos animais representa aspectos da vida. Por fim,  Pi fica sozinho num bote com um tigre de bengala, este representado as dificuldades que devemos saber lidar para viver.

Todo o filme é alegórico e cheio de sentidos, afinal, o livro que deu origem à adaptação é quase uma parábola afirmativa sobre a existência de Deus. E para que não haja dúvidas quanto à mensagem espiritual, o roteiro mastiga bem a lição de moral para que o público entenda que a história não se trata da sobrevivência de Pi, mas sim sobre como Deus age e ajuda os seus filhos terráqueos.

 

Mesmo que você seja um ateu convicto que ojeriza tudo que fale a favor do criacionismo, não precisa se preocupar. O filme oferece outros atrativos, principalmente o visual. A fotografia é de tirar o fôlego. Provavelmente, levará o Globo de Ouro e também o Oscar nesta categoria. Céu e mar refletem um no outro resultando numa imagem de quadro pintado com as melhores cores. Os efeitos visuais são reais e poéticos, o tigre feito com computação gráfica não fica devendo em nada aos do Discovery Channel.

A classificação indicativa é livre e daqui a alguns anos se tornará um clássico de qualidade na Sessão da Tarde. Apesar de ser lindo e leve, o roteiro mastigado – que não causa incômodo na primeira vez em que se assiste – pode diminuir o nível de perenidade a longo prazo, por isso, é melhor aproveitar a exibição nos cinemas para que a experiência seja completamente marcante. O 3D de “As Aventuras de Pi” é deslumbrante, profundidade e sensorialidade em sincronia. Um verdadeiro espetáculo visual.

Nota 9.

   

Categorias: Cinema, Oscar

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