Maísa sempre recebia seus pacientes com um grande sorriso no rosto. Simpática e confiável, ela respondia todas as dúvidas. Para saber o número exato de mulheres que saíram felizes do seu consultório seria preciso recorrer aos arquivos da clínica.

Acostumada a tornar a vida das pessoas ainda mais perfeita, Maísa só se ressentia com a situação incômoda de sua filha, Sofia. A menina nascera melancólica. Tinha beleza e riqueza na mesma proporção da depressão. Não se empolgava com praia, não tinha paciência para festas e desdenhava as siliconadas que pagavam sua faculdade de Museologia.

Por mais que sua mãe tentasse animá-la e arrumá-la para lhe fazer companhia em eventos sociais, a filha fingia que era vento e passava seus momentos sem se importar com os mandamentos da sociedade. Sentia-se bem solteira, pelo menos era o que dizia. Não convencia.

Viúva há cinco anos, Maísa não se conformava de ser mais feliz que Sofia. A desgraçada não tem problema nenhum, é perfeita, é linda e vive de cara feia. Estressava-se ao extremo e tremia quando via a filha andando pela casa feito zumbi, do quarto para cozinha. Apatia e introspecção que a afligia. O jeito para evitar maiores aborrecimentos foi aumentar seu tempo de trabalho inventando algo para organizar, aceitando consultas de última hora, encaixes.

A única coisa que a mãe não conseguia encaixar em sua vida de mulher independente e feliz era conviver com a aparente infelicidade de sua filha. Tentou dialogar sem perder as estribeiras. Perguntava, insistia, bajulava, mas a menina dizia que não era nada, pedia para que a deixasse em paz e chorava. Eu quero ajudar. Sai daqui. Por que você tá chorando? Porque eu quero, a vida é minha. Pare com isso. Briga, tapas e ranger de dentes. Insuportável.

Maísa colocou na cabeça que Sofia precisava de ajuda psicológica para ser feliz. Não é normal uma pessoa ter tudo e agir como se nada tivesse, há não ser que esta pessoa não tenha nada na cabeça. O psicólogo bem que tentou fazer o milagre, mas a santa não colaborou. Já sou feliz do meu jeito, disse Sofia na última sessão em que compareceu. Foi o estopim para a guerra que durou meses. Mãe e filha se tornaram inimigas entrincheiradas, ninguém atirava, mas também não levantavam a bandeira branca. O plano era viver assim até que ela se formasse e fosse embora de casa. 

A conformação da mãe durou até cometer o maior erro de sua carreira profissional. A paciente ficou insatisfeita, gritou, chorou e ameaçou processar. A imperfeição do serviço sendo exposta deixou Maísa sem chão, concluiu que o erro cometido era culpa do seu desgaste com a filha infeliz. Pois agora não admitiria mais esta situação, Sofia seria feliz nem que fosse por obrigação. Entrou no quarto da filha e a pegou pelo braço, disse que a faria sorrir para sempre.  A menina se soltou e mandou a mãe se retirar, porém Maísa estava decidida.Pegou-lhe novamente pelo braço e lhe enfiou uma injeção. Minutos após o susto, Sofia caiu em sono profundo. Anestesia, bisturi, sangue, mutilação… A cirurgia deu certo. Esculpiu um sorriso eterno nos lábios da filha que ria até mesmo enquanto dormia.


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