Com 12 indicações ao Oscar deste ano, “Lincoln”, de Steven Spielberg, é um filme que segue bem o estilo das últimas produções do consagrado diretor. Elenco magistral, trilha sonora eficiente, fotografia primorosa, mixagem de som impecável e roteiro superficial.

Baseado na biografia do presidente mais querido dos Estados Unidos, o filme é um recorte de um dos períodos mais conturbados da trajetória política de Lincoln: a aprovação da 13ª emenda, a qual libertaria os escravos no país. Em paralelo a luta para que a emenda fosse aprovada, a vida pessoal do personagem titulo também vem a tona, mostrando os problemas que ele enfrentava com sua família.

A premissa é interessante até mesmo para aqueles que não conhecem a História americana, porém ao invés do roteiro ser construído a partir das personagens como simplesmente seres humanos, o que se tem é a representação de figuras míticas do inconsciente norteamericano. Partindo do pressuposto que aquelas pessoas já são conhecidas desde os anos de escola, o roteiro não se aprofunda, e o que é pior: mantém uma aura de heroísmo para que fique bem claro o quanto os americanos são especiais.

Com direito a música de fundo aumentando, resoluções otimistas e ocultação da parte feia, “Lincoln” é praticamente uma massagem no ego. A imagem de presidente bonzinho e querido por todos é endossada de forma descarada e parcial. O filme é mais parcial que um livro didático. Sendo assim, por mais que haja méritos técnicos, a história não transcende as fronteiras dos Estados Unidos, o que demonstra uma grande falha, já que a determinação de Lincoln é universalmente identificável.

Daniel Day-Lewis consegue compensar a falta de dimensionalidade no texto com uma atuação poderosa. Provavelmente, um dos motivos para que o filme não se perca completamente é justamente por causa da interpretação do seu protagonista. É impressionante como Daniel está diferente de si e idêntico ao Lincoln, pelo menos ao Lincoln mítico, já que o roteiro optou por este caminho.

Sally Field e Tommy Lee Jones também concorrem ao Oscar, ambos como coadjuvantes. Indicações merecidas, pois não é fácil segurar a platéia por duas horas e meia tendo que se virar com personagens mal escritos. O mais intrigante é que a obra também foi indicada ao prêmio de Melhor Roteiro Adaptado, resta saber o que os jurados valorizam numa adaptação, pois se for a fidelidade, então está explicado, o filme tem momentos tão chatos como o de uma biografia quadrada e parcial.


Categorias: Cinema, Oscar

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