Não houve salvação para “Salve Jorge”. O público mandou o guerreiro de volta para a Capadócia e recebeu a estreia de Walcyr Carrasco no horário das nove com entusiasmo e alívio, na mesma linha de filosofia do Tiririca: pior do que tá não fica. Embora o novo folhetim não seja tão instigante como “Avenida Brasil”, a queridinha dos últimos tempos, “Amor à Vida” apresenta potencial, coisa que sua antecessora nunca chegou a sugerir.

Disposto a convencer o telespectador que sua obra será intensa e emocionante, Walcyr iniciou a trama com um cenário de tirar o fôlego: Machu Picchu. O parque arqueológico é umas da oitavas maravilhas do mundo. E merece o titulo. Visitei-o em outubro de 2012, período em que a produção da novela estava no país vizinho buscando por locações.

Criei expectativas assim que soube que o primeiro capítulo se passaria em Machu Picchu. Mas logo na primeira sequência veio a frustração. O arrebatador cenário foi usado de maneira forçada. Cesar (personagem de Antonio Fagundes) iniciou a saga exclamando parabéns a filha por ter passado em medicina, algo que geralmente se diz assim que se sabe da notícia e não após tomar um vôo com conexão para cusco, pegar um trem até Águas Calientes e subi parte do ponto turístico que tem um dos acessos mais difíceis da América do Sul.

A esta forçação se dá um desconto, pois para algo serviu: ver imagens estarrecedoras da região peruana. No entanto, impetuoso, o roteiro seguiu com uma sucessão intensa, insana e inexplicável. A mocinha caiu de amores para um hippie mochileiro (mais clichê impossível), encontrou-se com ele num acampamento inverossímil e fugiu para viver de amor e de Inca Kola.

Quando a cuota de intensidade parecia estar completa, veio a tão esperada abertura. Daniel colocou todo sentimento e garganta para entoar o tema principal da trilha. E para não deixar dúvidas de que esta será uma novela forte, o jurado do “The Voice” fez muita força no último verso da canção: “Grita, Grita, Griiiiiiitaaaaaa”. Já que o titulo é “Amor à Vida”, onde está o amor aos ouvidos?

Entre outros acontecimentos almodovianos, desta vez melhor explicados e bem feitos, como o parto e o roubo da criança, Carrasco voltou a deslizar feio na personalidade da protagonista. Querendo passar a impressão de que ela é uma mulher destemida, a personagem de Paola Oliveira tomou atitudes que acabaram lhe deixando com cara de patricinha antipática, rebelde sem causa. Malvino Salvador como o mocinho também não empolgou. Até Juliano Cazarré – que vinha numa crescente desde seu início na televisão em “Insensato Coração” – ficou aquém do esperado.

Nesta salada de desempenhos fracos e de arroubos pouco convincentes, o vilão interpretado por Mateus Solano roubou as atenções. Félix é mau, debochado e engraçado. Na semana passada, juntamente com Bárbara Paz, foi ao ar uma cena muito bem executada, na qual Félix assumia para a esposa que é gay. A atuação de ambos ofuscou os ditos protagonistas.

Bárbara Paz e Mateus Solano em cena.

A cada capítulo surgem novos núcleos cheios de vida. Estampa para disfarçar possíveis repetições. Fernanda Machado e Fúlvio Stefanini, por exemplo, voltaram a interpretar os mesmos papéis que defenderam em “Alma Gêmea”. Só mudou o figurino. Ela fazendo uma moça de índole duvidosa que sonha em ficar rica e ele um patriarca boa praça com acento.

Na ânsia de se afirmar como uma novela densa, “Amor à Vida” exagera na intensidade desconexa, rompantes injustificáveis. O tom está tão alto quanto os agudos do cantor Daniel. Mas ainda há bastante tempo para corrigir os meslismas destoantes.


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