Olá, está começando mais um “Entrevista na Alfândega”. Nas duas edições passadas exploramos o mundo árabe, Dubai e Iêmen, agora saímos do Oriente Médio e vimos à América do Sul para entrevistar uma brasileira que mora em Buenos Aires, o principal destino internacional do Brasil. 

Patrícia Kingkowiskie – sobrenome russo – é natural de Santos, mas morou por muitos anos em São Paulo, capital, onde trabalhava como professora de inglês. Após ser vítima de uma bala perdida, Patrícia ressuscitou e se mudou para a Argentina, onde hoje, com seus 32 anos bem vividos, trabalha dando aula de português para os nativos, e em paralelo, faz faculdade de fonoaudiologia. 

Patrícia no Zoo de Luján.

Uzi Por Aí: Olá, Patrícia. Muito obrigado por ter aceitado participar do “Entrevista na Alfândega”. Acredito que muitas pessoas têm interesse em morar e estudar em Buenos Aires, logo esta entrevista será de grande ajuda para muitos.

Eu vou começar com uma pergunta que pode até parece idiota, mas eu tenho que perguntar isso a uma sobrevivente: levar um tiro dói? Eu não consigo nem imaginar qual é a sensação, o que se passa, se é que se passa alguma coisa, quando uma pessoa é baleada. Deu tempo de pensar em alguma coisa? E o que esse acontecimento trágico mudou em sua vida? Ele teve alguma influência sobre a sua mudança de São Paulo para Buenos Aires?

Patrícia Kingkowiskie: Oi, Uzi! Obrigada pelo convite, e parabéns pela iniciativa. Sem dúvida é bem legal participar desta ideia de contar sobre as experiências que vivemos, pois além de ajudar a todos que tem a vontade de viver isto, também nos leva a fazer uma reflexão das mudanças que passamos durante este período, e por causa da correria não nos damos conta.

Bem, falemos sobre o incidente (risos). Eu sabia que teria que me preparar psicologicamente para estas perguntas. (Risos).

É aquela velha frase, lugar errado na hora errada. Estava saindo para trabalhar e passei por uma rua que estava acontecendo um tiroteio entre policiais e alguns delinquentes. Fiquei na linha de fogo e o pior aconteceu, uma bala me atingiu a exatamente 5 centímetros próximo ao coração. A bala entrou, saiu e eu não senti dor, mas sim uma queimação bem forte na região, e só percebi que algo não estava bem por causa do sangue que começou a aparecer. Quando a queimação foi passando aí sim começou a doer, mas logo depois desmaiei. O que posso dizer é que… A única coisa que pude pensar antes de desmaiar foi: ‘Deus, me ajude!’. 

Penso que este é o momento que nos sentimos mais dependentes de Deus, pois automaticamente, é Nele que se pensa, é a Ele que recorremos. Fico feliz em ter obtido uma resposta positiva de Sua parte.

Pensar sobre a vida, sobre os sonhos e até sobre a morte, vem depois. Quando você realmente começa a entender sobre o quanto você chegou perto de perder a sua vida. A visão do mundo muda, os valores mudam e você só começa a pensar em voltar para rua e simplesmente voltar a se sentir viva, e foi o que fiz depois de quase 6 meses no hospital, vivi!

UPA: Eu não sabia que sua recuperação tinha sido tão difícil. Impressionante! Mas vamos sair um pouco desse assunto pesado. Quando você se mudou para Buenos Aires, você ainda não era fluente em espanhol, já que seu segundo idioma era o inglês. Você teve dificuldades com a língua? E como você resolveu isso? Foi preciso fazer cursos, ou o dia a dia já foi o suficiente para aprender a falar bem e a entender?

PK: A ideia de viver em outro país sempre esteve presente em meus planos, mas sempre aparecia algo que me fazia postergar. Mas depois do incidente, me pareceu que era o momento exato. 

Eu achei que tinha um bom conhecimento da língua (o famoso Portunhol), mas quando cheguei em Buenos Aires, percebi que era uma das primeiras coisas que deveria fazer se eu queria realmente me fixar no país.

Em qualquer país a língua te aproxima dos nativos e aqui não é diferente. Apesar de ser um país que está muito acostumado a receber estrangeiros, eles mostram alguma resistência quando percebem que a pessoa não domina o idioma. Isto constrói uma barreira e dificulta muito a comunicação. Para evitar isto, logo que me estabeleci em um lugar, minha primeira decisão foi fazer um curso de Espanhol. Encontrei um perfeito no Instituto Casa do Brasil (especializado em espanhol para brasileiros).

Patrícia e alunos argentinos em Azucar (Casa de Danza Caribeña)

UPA: Eu queria saber os procedimentos que você tomou para conseguir emprego e para entrar na faculdade de fonoaudiologia. Há muita burocracia para ambas as coisas? Foi um processo lento? Você acha necessário contratar uma assessoria para quem está pensando em ter uma vida de estudo ou de trabalho na Argentina?

PK: Bem, quando tomei a decisão de morar em Buenos Aires, pensei em resgatar um velho sonho que estava adormecido, fazer medicina. Fiz uma grande pesquisa na internet e vi que existiam grandes possibilidades de estudar em uma universidade pública (UBA – Universidade de Buenos Aires) de qualidade e sem todos os processos seletivos que infelizmente as universidades do Brasil exigem. A partir daí percebi que o mais fácil seria contratar uma assessoria que fosse especializada em cuidar de todo este processo de documentação para brasileiros que iam estudar na Argentina.

Foi ótimo, pois é um processo bem burocrático tanto do lado do Brasil como o da Argentina e isto faz com que você economize tempo e desgastes com filas intermináveis para convalidação de documentos. Claro que isto gera um custo a mais no planejamento da viagem, mas para mim, comparando custo e benefício, entre fazer tudo sozinho ou contratar uma assessoria, sem duvidas vale a pena ter este gasto adicional.

Depois de tudo pronto, a minha única preocupação foi fazer as malas e voar para Buenos Aires.

UPA: O que Buenos Aires lhe deu que São Paulo não lhe deu? E não me responda que foi segurança, porque aí também há um pouco de violência, não? Por exemplo, é muito comum ser furtado no metrô daí. Ou isto nunca lhe aconteceu? 

PK: Um dos fatores foi segurança, sim. (Risos). Como você disse, aqui em Buenos Aries “tem um POUCO de violência”, mas infelizmente nada comparado com o Brasil. Aqui ainda é um lugar tranquilo. Não sei por quanto tempo, no momento me sinto segura aqui e depois do que passei, segurança para mim, é um fator decisivo na escolha de onde viver. 

Aqui não se tem muito acesso a armas como no Brasil, e isto favorece muito para ser um lugar mais tranquilo. Os furtos são muito comuns, mas não se ouve falar em assaltos a mão armada, troca de tiros ou coisas do gênero.

Sempre digo que Buenos Aires me lembra cidades do interior, onde quando acontece este tipo de coisa, fala-se sobre o assunto por dias, pois as pessoas não estão acostumadas. Por exemplo: uma professora que foi atropelada por um transporte público a um ano atrás, até hoje eles falam sobre o assunto com muita indignação. No Brasil isto acontece a cada minuto e já estamos tão acostumados com isto que não nos chocamos mais. Isto é preocupante.

UPA: Há uma comunidade muito grande de brasileiros em Buenos Aires. Afinal, são muitos os estudantes, principalmente de medicina, que vivem por aí. O que eu quero saber é o seguinte: como você vê essa comunidade? Explico: há união entre vocês brasileiros ou o que existe é mais uma competição? Conterrâneos querendo puxar o tapete do outro…

Colegas de Trabalho – Empresa Keepcon.

PK: Sim, existem muitos brasileiros aqui, eu trabalho com vários, são pessoas bem queridas e matemos uma boa relação de trabalho, mas não passa disto. Sinceramente não sou uma pessoa de muita badalação e os brasileiros que vivem aqui acabam tento uma vida social bem agitada, pois Buenos Aires proporciona isto, a vida noturna aqui é muito intensa. Tenho alguns amigos brasileiros e nos vemos com alguma frequência para assistir jogos, matar a saudade da comida em alguns bares brasileiros ou alguma festa do gênero. Às vezes a saudade bate e aí só se juntando para suprir a falta. Mas fora isto, prefiro uma vida mais no aconchego do meu lar, com os programas televisivos ou a boa e velha companhia da internet ou livros. Parece papo de velha, mas minha vida é tão agitada durante a semana que no fim de semana eu só penso em curtir minha casa.

Não vejo competição entre brasileiros, pelo contrário costumamos nos ajudar mutuamente. Sempre existe uma troca de informações sobre onde comprar, o que fazer,  como e quando. É algo muito comum passarmos estes tipos de informações pelas redes sociais, por telefone ou pessoalmente.

UPA: Particulamente, eu fiz muitos amigos brasileiro aí em Buenos Aires, você é um deles. Porém já não fiz tanta amizade com os nativos. E digo mais, eu me decepcionei muito com a antipatia dos porteños. Diante desse jeito mais fechado deles, eu te pergunto: existe amor em Buenos Aires? (Risos). E puxando mais para o lado amoroso: qual é a diferença que você vê entre o homem argentino e o brasileiro? 

PK: Completamente de acordo. Realmente aqui é um país bem diferente do nosso. Eu sempre digo: Amo a Argentina, e suporto os argentinos. (Risos). Espero que esta entrevista não seja lida por nenhum deles. (Risos).

 

São pessoas de muito difícil convívio, pois não se envolvem, parece que sempre estão na defensiva, além de ter um péssimo humor. Parte deste perfil é pela historia da Argentina, que já foi a maior potencia da América Latina e hoje se encontra com tantos problemas sociais e políticos, isto criou no argentino uma desconfiança aparente, além de um inconformismo com a situação atual do país. 

Mas, sim, existe amor na Argentina (risos). A prova disto é que existem dois motivos que trazem o brasileiro a viver aqui, ou vem para estudar, ou vem para casar. (Risos). Dizem que o casamento perfeito é entre um brasileiro e uma argentina (ou vice e versa). Existem muitas brasileiras que deixaram tudo no Brasil e vieram viver com argentinos aqui, e não se arrependem, estão muito felizes. Eu ainda não encontrei um argentino que me convencesse que isto é verdade, então, eu ainda fico com a pegada brasileira (risos).

Eu e Patrícia em La Plata.

UPA: Qual o ponto turístico da cidade que você mais gosta para passar um tempo? E qual lugar, que não está listado no roteiro turístico, você recomendaria para quem está visitando Buenos Aires?

PK: Eu amo Puerto Madero, para mim é perfeito. E o local que não está no circuito turístico, mas quem vai adora é a “Costanera”. Para quem quer passar uma tarde tranquila, lendo um livro e em contato com a natureza é o local adequado. Outro local legal para quem quer cometer o pecado da gula e comer doces de ótima qualidade é um  café chamado “Las Violetas” (entre Rivadavia e Medrano). É maravilhoso!

Em Puerto Madero com amigos.

UPA: Ah, vou anotar essa dica. Agora uma pergunta mais pessoal. Você tem uma vida de muita independência. Você mora sozinha, paga suas próprias contas e não tem que dar satisfação a ninguém. Acredito que isto seja algo que se consegue com esforço e sacrifício, então pergunto: o que você teve que sacrificar para ter esse estilo de vida tão almejado por muitas pessoas? E sendo mulher, você se sente vítima de algum tipo de machismo ou preconceito por ser emancipada e, civilmente, solteira?

PK: Sim, isto realmente é maravilhoso, a independência! Acho que o maior sacrifício que tive que fazer foi ficar longe de minha família. Sempre quis sair de casa e isto aconteceu aos 18 anos. De um lado foi bom, pois me proporcionou a chance de aprender a fazer tudo sozinha, conquistar meu espaço, isto passando por erros e acertos. Mas também me tirou a oportunidade de estar mais em convívio familiar, às vezes me sinto uma visita em minha própria casa e como toda visita, uma hora você necessita ir embora. É isto que acontece. Não consigo permanecer períodos longos em casa, pois me sinto uma estranha. Isto me deixa triste, e me faz repensar no quanto as escolhas nos retiram algumas coisas importantes.

Eu vejo os argentinos mais independentes que os brasileiros. Aqui é normal um jovem sair de casa para ter sua vida independente, coisa que no Brasil o normal é que os jovens saiam de casa para casar ou para mudar de cidade ou país. Somos mais ligados aos pais. Por isto, acho que me encaixo bem ao estilo de vida daqui. Agora no Brasil, já tive namorados que se assustavam um pouco com meu estilo de vida.

Catedral de La Plata, cidade vizinha a Buenos Aires.

UPA: Eu concordo totalmente com o que você disse agora. Principalmente no interior, as pessoas ainda costumam sair da casa dos pais só depois de casadas. Mas bom, continuando… Buenos Aires vive abarrotada por turistas brasileiros. Na sua opinião, qual é o pior hábito que nós possuímos ao visitar à capital porteña? E que recomendação, ou conselho, a respeito de comportamento, você daria aos que vão passear por aí?

PK: Boa Pergunta, sempre quis falar isto para os Brasileiros (claro que estarei generalizando, pois não são todos que tem esta postura, mas vi muitos fazendo isto).

Primeiro, tratem o país dos outros como você deveria tratar o seu. Não chegue aqui jogando lixo no chão como se desconhecesse o termo limpeza e organização. Pois primeiro isto deixa uma péssima impressão de nosso país, eles pensam que todos são iguais e segundo, não é porque você vê a cidade suja que você imagina que pode contribuir com mais sujeira. Já vi vários Brasileiros jogando lixo no chão de maneira vergonhosa, e a alguns eu pedi que não fizessem isto.

Depois, por favor, não sejam grosseiros. Vocês são visitas, e nunca vamos à casa de alguém e tratamos nossos anfitriões como se fossem empregados. Sei que os argentinos não são as pessoas mais simpáticas do mundo, mas por favor, o país é deles, deixemos para ser arrogantes e mal educados em nosso país, aqui, finjamos ser no mínimo civilizados. Já vi brasileiros gritando com taxistas, vendedores ou policiais por não se fazerem ser entendidos. Se quer viajar em um país de idioma diferente, estude o idioma e se faça entender.

Só isto, falei (risos).

UPA: Quando você terminar a faculdade de fonoaudiologia, você pensa em voltar para trabalhar no Brasil ou tem planos de clinicar por aí? O que diria para aqueles que pensam em estudar fora, mas que têm medo de não conseguirem validar o diploma no Brasil? A validação é totalmente segura, ou realmente há o risco do diploma internacional não ser aceito?

PK: O momento esta muito propicio para convalidar os diplomas, o Brasil acabou de assinar um documento em que os cursos universitários feitos na Argentina serão aceitos no Brasil e vice e versa, assim que, é o momento. E além de tudo, já valia a pena estudar aqui pela experiência que isto proporciona. 

Eu ainda não sei o que fazer, me sinto cada dia mais presa a Buenos Aires, mas sei que o momento de voltar vai chegar, por enquanto não quero fazer planos, quero apenas aproveitar o tempo que tenho por aqui. Mas sim, meu lugar é no Brasil e a volta será inevitável.

Bate-volta, Jogo Rápido

No Caminito, bairro de La Boca.

Felicidade:A minha paz de espírito

Nostalgia:Os momentos com meus amigos do Brasil,

Tango:Algo para ver e ouvir por no máximo 10 minutos depois disto, insuportável.

Futebol:Me diverte muito, mas não sou fanática.

Cristina Kirchner ou Dilma Rousseff? Cristina. Não cheguei a pegar o governo da Dilma, mas o que vejo pelas redes sociais, me decepciona (sou PT e esperava um governo melhor).

Caminito ou Avenida Paulista? Avenida Paulista, amo esta avenida, me traz ótimas recordações, além de ser charmosíssima.

Um arrependimento: Não ter casado com o Brad Pit quando ele me pediu a primeira vez (risos). Não me arrependo de nada, sinceramente todos os erros e acertos foram validos.

Um orgulho: Ser livre.

O que te faz chorar é… A falta de pessoas que se foram sem eu dizer adeus, sem ter tido a certeza de que fiz tudo o que pude por elas, e de não ter dito eu te amo pela ultima vez. (Chorei).

E para terminar, o que diria para o amor, se ele exigisse que você deixasse tudo e fosse embora de Buenos Aires?

Tentaria negociar, se não tivesse acordo, diria: que pena, mas foi bom enquanto durou. Não troco minha liberdade por nada, nem mesmo pelo amor.

UPA: Eu também acho que a liberdade é mais importante. Até porque, dizem, que o amor verdadeiro é aquele que liberta e não o que prende. Bom, mas isso já é outra análise… Patrícia, espero que você tenha gostado de ter participado…  

PK: Para mim, responder a esta entrevista, foi bem desafiante, pois me fez perceber o quanto a escolha de mudar de país foi decisiva em muitos aspectos de minha vida, além de ter que refletir sobre coisas que não queria, mas são muito importantes.

Uzi Por aí: E essa é a intenção dessa coluna: servir tanto para os leitores que querem viajar, como para o entrevistado. Fico feliz que tenha sido um exercício positivo para você. Acho que você é uma sobrevivente, uma batalhadora e lhe felicito por sua coragem de ir contra ao que muitas pessoas julgam ser o certo. Muita prosperidade aí em Buenos Aires e obrigado pela entrevista.

Aos leitores que gostaram: podem curtir, compartilhar, comentar, perguntar alguma outra coisa… Em agosto, voltaremos com mais uma edição do “Entrevista na Alfândega”, além de um relato de viagem sobre Roma. Até lá.

Patrícia na Flor da Recoleta.

Categorias: Argentina, Entrevista na Alfândega

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