O dólar está alto, a inflação está grande e a marolinha está cada vez maior, porém nada disso é motivo para desanimar e muito menos para se desesperar. Assim sendo, relaxe e goze de mais uma “Entrevista na Alfândega” que neste mês conversa com um jovem que vive no país que é (ou já foi) o sonho de 9 entre 10 latinos, os Estados Unidos. 

Laecio Rocha é paraense, morou alguns anos na Bahia e foi embora do Brasil aos 16 anos de idade. Hoje com 24, ele mora em Seattle e está terminando a faculdade de Saúde Pública. Porém antes de viver no estado de Washington, residiu em Orlando, estado da Flórida, onde teve diversos empregos, inclusive foi funcionário da Disney. Recentemente, Laecio também esteve no Equador fazendo parte de um programa de sua universidade. E agora ele está aqui para nos dar dicas sobre estes lugares, falar de sua vida e se fazer conhecer.    
Laecio Rocha – Inverno em Washington

 Uzi Por Aí:Oi, Laecio. Antes de tudo quero te agradecer por você ter aceitado o convite para nos contar um pouco de sua vida de imigrante nos Estados Unidos. E quero começar perguntando: como é para um jovem, que estava no segundo ano do ensino médio, deixar o seu país no meio do ano letivo, deixar seus amigos e ir estudar num país com outra cultura, outro idioma… Foi uma adaptação difícil? E como é ser latino no colegial americano? 

Laecio Rocha:Eu é que agradeço a oportunidade, meu querido. Sua criatividade é fonte de inspiração pra mim.

Não foi fácil sair do Brasil tão repentinamente. Dormir em um país e acordar em outro, onde tudo é diferente daquilo que você sempre esteve acostumado, não é fácil. Me lembro que me trancava em meu quarto e chorava quase todos os dias depois da escola. Meus amigos não estavam ali, o gosto da comida era horrível, e não conseguir entender o que outros falavam me frustrava e me enraivecia. 

Apesar de ter tido experiência com profissionais de educação que não entendiam o que é ser um imigrante, a maioria de minhas experiências foram boas. Minhas professoras de Inglês eram de Porto Rico e sempre me tratavam com um carinho fora do comum; até hoje mantenho contato com elas. Tive um professor de História Americana que era um eterno apaixonado pelo que fazia. Eu não entendia nada que ele falava, mas sentia a paixão com que ensinava. 

Quanto aos alunos, fiz muitas amizades com alunos de origem hispana. Me lembro que na minha mesa no intervalo sentavam-se alunos de Porto Rico, Venezuela, Republica Dominicana, Equador, El Salvador, Cuba e Argentina. Era uma festa (risos). 

Fiz o Segundo ano em Orlando e me mudei para o estado de Washington, cidade de Seattle para terminar o terceiro.  Por lá tudo era diferente, a cultura mais rebuscada, pessoas bem educadas, e tudo era mais caro também (risos).

Em cada classe eu tinha a companhia de alguma integrante do grupo de líderes de torcida que me ajudavam com muita paciência e sempre intervinham a meu favor nos mais variados assuntos escolares; sem contar o fato de que eram de uma beleza sem igual (risos).

Califórnia.

UPA:Você começou a falar sobre as diferenças entre Orlando e Seattle. Turisticamente falando, Orlando é um destino mais conhecido, porque tem a Disney e tal… Porém, eu quero saber de você: para turismo, Seattle é realmente menos atraente? O que tem para se fazer em Seattle? 

LR: Morei em Orlando, mas não voltaria a morar lá se tivesse a escolha. Orlando e bom para ferias, alguns dias apenas. O calor e insuportável, o salário mínimo é muito baixo e é muito difícil aprender inglês, pois quase tudo pode se resolver em espanhol. Mas se for a Orlando esqueça a Disney (risos), visite o Bush Garden, Universal Studios, International Drive ou Clear Water (uma praia incrível). 

Quando o assunto é Seattle tudo muda. Seattle e uma cidade melancólica, fina, e para todos os gostos. O clima de Seattle é sempre nublado se não chuvoso, mas os verões são inesquecíveis e a paisagem de tirar o fôlego. Seattle foi feita para os que apreciam um bom vinho, mariscos, pasta e um bom café. Em média os cidadãos de Seattle consomem quase três vezes mais café do que a média nacional… E o café mais famoso, claro, é o Starbucks. Seattle é muito romântica. Assim como Londres, aqui também temos aquela roda gigante (Great Wheel) de tirar o fôlego, linda, ao lado do famoso Space Needle, onde se pode não apenas se debruçar na gastronomia fina do lugar como também sentar-se em um salão rotatório, onde a vista para Seattle muda constantemente. 

Se for a Seattle também nao deixe de visitar Snolquamie Falls, Alki Beach, Lake Washington, Leavenworth (cidade alemã), Deception Pass e Gummy wall. Não deixe de dar um passeio de barco pelas muitas ilhas que formam o chamado Puget Sound.

Jogo de Basebol em Seattle – Mariners versus Detroit

UPA: Por falar em Disney, você chegou a trabalhar em um resort da empresa. Como aconteceu sua contratação? No que consistia o seu emprego? Sendo legalizado, é fácil conseguir trabalhar lá? E o mais importante, é realmente bom ser um funcionário da Disney?

LR: Assim que cheguei do Brasil eu precisava de um emprego depois da escola (part-time). Foi então que resolvi me aplicar para trabalhar em um Resort da Disney, me chamaram imediatamente para o trabalho. Eu não falava muito inglês, mas minha chefe de departamento era do Perú, então falávamos sempre em espanhol. Eu comecei fazendo serviços gerais como lavar toalhas, colocar sabão/shampoo/secador nos quartos. Pouco tempo depois fui promovido a Supervisor de Controle de Qualidade (Quality Control Supervisor) onde meu trabalho se baseava em supervisionar 50 profissionais de limpeza e de liberar os quartos para que fossem disponibilizados para alugar. 

Nunca tive problemas enquanto trabalhei para a Disney, mas lá pagavam o mínimo dos salários (minimum wage) comparado a outros lugares. Por exemplo, na Disney eu ganhava $6.75 por hora, ja em Washington eu ganho $13 por hora e trabalho metade do tempo. Se você é legal nos Estados Unidos não há escassez de trabalho. Mas se você esta irregular no país as opções são mais limitadas; geralmente limpeza de casa, cortador de grama, construção ou entregador de pizza. 

Apocalipse zumbi em Seattle.

UPA: Você tem alguma dica para quem está indo ou pensa em conhecer a Disney? Como você trabalhou lá, você deve saber as melhores épocas, ou as armadilhas a serem evitadas… 

LR: Compre suas passagens com muita antecedência e faça a reserva do hotel 3 a 4 meses antes de ir. Não dê uma de marinheiro de primeira viagem porque se não só poderá encontrar hotéis a 1 hora de carro da Disney. Se puder, alugue um carro… Sua vida será bem mais fácil. Na Flórida tudo é muito distante… Até mesmo dentro da Disney de um parque para outro. Se for a Disney não deixe de visitar o Downtown Disney, é uma cidade… Da Disney. (Risos).

UPA: Boas dicas. Agora saindo um pouco desse assunto turístico, me responda: você foi “contaminado” pela filosofia do “sonho americano”? 

LR: Quando você chega aos Estados Unidos, você nota o quanto os americanos são focados, trabalhadores e responsáveis. Faça tudo para não perder a confiança de um americano e sua vida será ótima. Seja pontual, honre seus compromissos, e não minta. Não ha jeitinho brasileiro por aqui. Em um trabalho, por exemplo: americano entregara a chave de sua casa pra você na primeira vez que te encontrar, eles são assim. Mas se voce aprontar alguma, roubar, for desleal e ele descobrir, pra ele você não vale mais nada a partir daquele momento… E na cultura americana isso significa muita coisa. Aprendi muito com esse aspecto da vida americana. 

Acho que sempre fui contaminado pela filosofia do sonho. Eu sempre quis vencer, e sempre procurei focar no meu objetivo. Cheguei aqui apenas para descobrir que na cultura americana essa luta pra vencer na vida tem um termo que a define, “The American Dream”. 

 

UPA: Qual foi o processo que você passou para entrar na universidade? Sendo imigrante, acredito que haja mais burocracia e dificuldade devido ao idioma, ou não? 

LR: Eu entrei nos Estados Unidos já como cidadão americano, pois era de menor e recebi a cidadania automaticamente. Creio que no meu caso a língua foi sem duvidas meu maior desafio. Para se ter o conhecimento da língua inglesa a nível de faculdade é preciso muita dedicação, treino, estudo e acompanhamento… Aqui há uma infraestrutura fantástica para isso. 

Você tem que se apaixonar pela língua e deixar que ela te surpreenda. Se não for assim, a insegurança toma conta, as pernas tremem e você começa a gaguejar (risos). Como imigrante, você nunca aprende tudo sobre a língua. Todos os dias volto pra casa com uma palavra nova, uma definição mais apropriada ou um termo popular diferente. Como imigrante você precisa se impor, reconhecer que não sabe de tudo, ter a segurança para lidar com a frustrações, humildade para se autocorrigir e inteligência para ser notado em meio a tantos.

UPA: Por causa da sua faculdade de Saúde Pública, você foi passar uma temporada no Equador fazendo uma espécie de estágio ou algo assim… Um trabalho com crianças… Eu queria saber como foi a experiência, o que você achou do Equador de uma maneira geral e, pelo que você viu lá, o Equador possui estrutura para o turismo ou as coisas são difíceis?

LR: Estudei o sistema de Saúde Pública Equatoriana bem como a Saúde Pública da América Latina em geral por um mês. Tive a oportunidade de fazer visitas comunitárias, trabalhar com médicos, estudantes de medicina, ouvir palestras e conhecer lugares; tudo em minha terceira língua (espanhol), o que para mim foi uma experiência muito gratificante e inesquecível. 

O Equador é lindo e esta passando por mudanças profundas de infraestrutura e desenvolvimento. O sistema de Saúde Publica do Equador esta fantástico; ênfase na atenção básica e cuidados primários estão transformando a realidade da saúde equatoriana. 

Lá também tem uma ótima infraestrutura para o turismo com cursos de línguas estrangeiras, baixos preços em estadia e comida, além de oferecer lazer para todos os gostos. Quem vai ao Equador não pode deixar de visitar a histórica cidade de Cuenca e Baños, uma cidade repleta de aventuras radicais. Se for à praia, vá para Ayampe. 

No Equador com colegas da faculdade.

UPA: A grande crise que se abateu sobre os Estados Unidos nos últimos anos chegou a lhe afetar de algum modo?  E estando aí, você acha que os Estados Unidos ainda é um país vantajoso para quem quer fazer dinheiro, ou na sua visão esse tempo já passou?

LR: Sabíamos que estávamos passando por momentos delicados na economia, mas isso não chegou a ser visto literalmente no dia-a-dia. A crise atingiu grandes empresas e grandes empresários, a maioria da população apenas se tornou mais cautelosa quanto à situação. 

O americano é muito preparado, quando os primeiros rumores da crise começaram a aparecer, eles começaram a fazer retenção de gastos, ou seja, em caso a crise chegasse em momentos críticos já estariam prontos. Acho que o mais difícil foi a parte imobiliária, muitas famílias tiveram que deixar pra trás o sonho da casa própria e voltar a viver de aluguel. 

Os Estados Unidos continua um país vantajoso para se viver com uma ótima qualidade de vida, mas já não é mais o lugar onde se “ajunta dinheiro com rastelo” como era conhecido ultimamente. O valor do real junto ao dólar hoje em dia é de 2 para 1; nada comparado a dez anos atrás quando com $1 dólar  podia se comprar $4 reais.

O Brasil mudou muito economicamente, em oferta de crédito e melhores oportunidades, e isso tem feito com que muitos brasileiros estejam indo embora dos Estados Unidos.

Paisagem do estado de Washington.

UPA: Fazendo uma reflexão interior, o que você perdeu em ter partido do Brasil durante sua adolescência? Ou só teve vantagem?

LR: Não vejo minha saída do Brasil como uma perda, muito pelo contrário. Houve uma oportunidade e eu, mesmo sem entender por completo na época, a agarrei. Ter feito ate o Segundo ano do Ensino Médio no Brasil foi essencial para minha vida acadêmica. 

Hoje posso dizer que conheço os dois sistemas educacionais a fundo. Aprendi o inglês a nível de faculdade, me aperfeiçoei no espanhol e falo minha língua querida, o português. Fiz apenas um semestre de francês desde que cheguei nos EUA, mas pretendo retomar as aulas em breve. Estou em meu ultimo ano de Saúde Publica, curso pelo qual me apaixonei desde o primeiro trimestre de estudos. 

As especializações em Biologia e Saúde Comunitária apenas mostram minha paixão por pessoas e tudo aquilo que envolve seu bem estar. Quero fazer um mestrado em Saúde Global e poder trabalhar a nível governamental; quem sabe esse sonho não se concretize no Brasil. 

Nunca podemos encarar os rumos que nossa vida toma como perdas, mas sim como oportunidades. Nesse aspecto eu sou fã do estilo brasileiro de ser. Acho os brasileiros um povo excepcional, batalhador e sempre sorridente. Tenho muito orgulho de ser brasileiro.

Bate-volta, Jogo Rápido

 
Projeto social no Equador.

Estação do ano: Frio porque é ótimo ficar quentinho dentro de casa vendo a neve cair lá fora

Fast food: Uma praga.

Periguetes: Estão em toda parte.

Pará ou Bahia? Minha descendência é baiana, mas o Pará tem nos acolhido maravilhosamente bem. Quem disse que não se pode tomar açaí e comer acarajé ao mesmo tempo?!

Lost ou Prison Break? Prison Break sem sombra de duvida.

O humor americano é…  Sem graça.

Um medo: De não poder sorrir.

Duas coisas que te irritam: Desorganização e mau humor.

Ser careca: Me faz feliz. Me sinto charmoso, não a trocaria por cabelos (risos).

E para terminar, o que nunca diria para o fiscal da imigração?  Nunca faria uma brincadeira que envolvesse cor de pele ou etnia. O americano leva isso muito a sério… Até demais.

Uzi Por Aí: Posso imaginar. Já fica aí a dica para quem for passar pelo controle de imigração. No mais, eu só tenho que te agradecer novamente por ter disponibilizado um pouco do seu tempo, afinal, último ano de faculdade é sempre muito corrido, mas mesmo assim você se dispôs a participar. Desejo que você continue vivendo esse sonho americano, vejo que você já o está realizando e que é merecedor, porque se esforçou para conseguir tais realizações. Sua jornada é exitosa e inspiradora. Meus parabéns.

Agradeço também aos leitores que vêm acompanhando esta série de entrevistas e faço o convite para que não percam as próximas. Hasta la Vista!


Categorias: Entrevista na Alfândega, Equador

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  1. SuzanaResponder

    Adorei Laecio.