Há seis meses, começamos aqui no blog a entrevistar brasileiros que estão espalhados pelo mundo. Já passamos pela Argentina, Iêmen, Dubai, Abu Dhabi, Holanda, Estados Unidos e nesta última entrevista do ano, vamos explorar o Canadá na companhia de uma imigrante bastante simpática e inteligente.

Zinádia Ludmila é uma baiana de 31 anos. Ainda muito jovem, mudou-se para o Estado de São Paulo, onde fez o ensino médio e o superior. Assim que se formou em Educação pela UNICAMP, casou-se e em 2006 imigrou com o seu marido, Arlei, para Vancouver. Atualmente, moram em Calgary, cidade de inverno rigoroso. Nesta entrevista, Mila nos contará como faz para sobreviver ao frio, além de nos inspirar com a sua trajetória.

Uzi Por Aí: Antes de qualquer coisa, muito obrigado por você ter aceitado o meu convite em participar. Eu vou começar perguntado sobre seu nome, afinal, nomes compostos sempre me chamaram atenção. Você se sente mais Zinádia ou mais Ludmila? O que cada um deles representa para você? E como prefere ser chamada?

Zinádia Ludmila: Oi Uziel, é um prazer poder participar do seu blog e contar um pouco da minha experiência.

Respondendo a sua pergunta, eu me sinto mais Mila. Desde que eu me entendo por gente meus amigos e familiares me chamam de Mila. Na faculdade me chamavam de Zi, na igreja de Ludi, mas Mila é como sou chamada em casa. Zinádia é só mesmo para documentos e formalidades, nem meu pai deve saber que me chamo Zinádia. (Risos). Gosto muito do fato do meu nome ser único e também gosto da sonoridade.

UPA: Após tantos anos morando num lugar com outra cultura, outro idioma, outra gastronomia, eu me pergunto: o que será que sobra da origem? No seu caso, permaneceu alguma coisa que ainda lhe identifica ou lhe faz se sentir como baiana, que não seja a família ou os documentos?

ZL: Quando eu me mudei para São Paulo, eu tinha uns 13/14 anos de idade. Passei minha infância na Bahia mas minha adolescência passei em São Paulo. Apesar da minha família estar na Bahia, passei mais tempo da minha vida em outros lugares. As pessoas mesmo dizem que não conseguem dizer de onde eu sou pelo meu sotaque, acho que tenho um pouco de cada lugar onde passei. É engraçado pois, quando vou para a Bahia ou para São Paulo, não me sinto em casa. Posso dizer que atualmente me sinto parte do lugar onde vivo, ou seja me sinto Calgarian! Tenho muitas recordações boas da minha infância na Bahia, mas é a minha família mesmo que me faz manter laços baianos. 

Calgary.

UPA: Ao imigrar para Vancouver, como foram os primeiros meses dessa mudança no sentido de adaptação psicológica? Foi fácil?

ZL: O Arlei e eu já tínhamos vindo antes para o Canadá para estudar o idioma. Ele sempre teve uma paixão pelo país e em especial pela cidade de Vancouver. Em 2006 ele recebeu duas propostas de trabalho de diferentes empresas, uma para Vancouver e outra para Calgary. 

Não pensamos duas vezes e aceitamos a proposta para Vancouver. A nossa adaptação foi muito tranquila, pois já conhecíamos a cidade e era exatamente o que queríamos. Além disso, nós tivemos todo o apoio da empresa que ajudou no processo de obtenção de visto, documentos, passagens, mudança, moradia, custos, etc. Eu tinha um emprego como professora do Estado de São Paulo e me lembro que as pessoas me questionavam como eu poderia deixar um emprego público (concursado), mas isso nunca foi problema para tomarmos nossa decisão.

Acredito que o mais importante para se adaptar é ter o domínio do idioma e entender a cultura local, ou seja, conseguir se comunicar e entender o comportamento das pessoas. Outra coisa importante é estar de mente aberta para experimentar o novo e não esperar que as coisas sejam como são no seu país de origem. Talvez por isso sempre nos adaptamos bem em todos os lugares que passamos.

Eu não diria que mudar de país seja uma experiência fácil ou para qualquer um, mas para nós era o que buscávamos e não trocaríamos essa experiência por nada.

Primavera em Vancouver.

UPA: Eu acho que essa é uma das vantagens de já ter trabalhado num colégio estadual, porque quem já foi professor na rede pública se adapta facilmente a qualquer coisa e eu falo isso de experiência própria. (Risos). Ainda mais quando é uma mudança para um país em que o trabalho com a educação é mais valorizado. Agora, quais são as maravilhas de Vancouver que um turista não pode deixar de conferir?

ZL: Vancouver tem várias opções para turismo. Vou listar algumas:

– Canada Place – é um porto para os cruzeiros, nele tem ainda o Imax que é o cinema 3D e uma linda vista de North Vancouver.

– Stanley Park – várias coisas para ver e fazer por lá como passear de bicicleta, ver os totem poles, visitar o aquarium, ir na marina, ir até o Lions Gate bridge, etc.

– Robson street – rua para quem gosta de compras!

– Queen Elizabeth Park – um dos parques mais lindos que já conhecemos. Muitas flores e jardins lindos.

– False Creek – andar de bicicleta ou caminhar, ir no Science World (esse passeio é mais para quem tem crianças). Do outro lado da Burrard bridge (fora de downtown) tem o Granville Island com vários mercados, restaurantes e lojas para turistas.

– Praias – Kitsilano beach, Jericho beach e English bay são as melhores. English bay tem um pôr-do-sol lindo!

– Gastown – parte antiga da cidade com edificios históricos e o famoso relógio a vapor. Essa área é bem turística, poucos blocos mais longe de downtown fica a West Hastings street que é conhecida pela presença de drogas e desabrigados. É melhor evitar essa parte da cidade.

– Seabus – liga downtown a North Vancouver. No porto em North Vancouver tem-se uma vista linda de downtown, especialmente a noite.

– North Vancouver – tem várias opções de passeio. Capilano bridge (ponte suspensa), Lynn Canyon Valley, Deep Cove e a Grouse Mountain.

Fora de Vancouver ainda tem Victoria and Whistler. Um dia em cada cidade é suficiente. Para aqueles que gostam de montanhas, tem um passeio de uns 4 dias para as montanhas rochosas que vale muito a pena se for no verão.

 
Em Elizabeth Park.

UPA: Uau, acho que você já poderia publicar um guia, hein. Muito útil essas informações e você descreve os lugares com tanta afetividade que dá realmente vontade de conhecer. Bom, mas ttrês anos depois você teve que se mudar de Vancouver para Calgary. Quais são as principais diferenças entre as duas?  Da qual você gosta mais?

ZL: Já falei que o Arlei amava Vancouver antes mesmo de morarmos lá. Eu também aprendi rapidamente a amar Vancouver. Para aqueles que não conhecem a cidade, olhem no Google! A cidade é linda, tem praias e ainda fica perto das montanhas. O clima é o mais ameno no Canadá e as estações do ano são bem definidas e com sua beleza característica. Mas tudo tem seu custo! Vancouver é considerada uma das cidades com o maior custo de vida do país, uma casa modesta não sai por menos de meio milhão de dólares, os impostos são altos e os salários são geralmente mais baixos que em outras províncias.

Já Calgary é bem diferente, o clima é bem mais frio e no inverno enfrentamos temperaturas que podem chegar a -40C. Apesar da cidade e das casas estarem preparadas para isso (se isso é possível, risos), aqui não se vê muitas pessoas andando nas ruas como em Vancouver. As estações aqui não são tão bem definidas como em Vancouver, costumamos brincar e dizer que Calgary tem duas estações – o inverno e uma semana de verão! A verdade é que ficamos com neve no chão por uns 5 meses do ano. O interessante aqui é que as temperaturas podem variar bastante de um dia para o outro, um dia pode estar -30C e no próximo dia 10C. Isso se deve aos ventos quentes do sul chamados Chinook. Calgary está localizada a aproximadamente uma hora das montanhas rochosas e o Parque Nacional de Banff onde ficam as paisagens e os lagos mais lindos que já vimos.

Calgary é uma cidade tranquila e segura, a economia local é baseada no petróleo, os salários são mais altos e os impostos são os mais baixos do país.

Eu diria que as duas cidades são ótimas, mas bem diferentes. Não tem melhor ou pior, tudo depende do que você está procurando. Amamos Vancouver e aprendemos a amar Calgary também.

Mila e Arlei no Parque Nacional de Banff.

UPA: Turisticamente falando, você considera Calgary uma cidade interessante? Ou os melhores roteiros realmente são cidades mais famosas, como: Vancouver, Quebec, Ontario…?

ZL: Turisticamente falando, acho que Calgary não se compara aos destinos mais conhecidos no Canadá. Calgary tem algumas opções de passeio, mas poucas se comparada a Vancouver. Calgary é uma cidade mais tranquila mas tem o Stampede que é uma festa no verão no estilo cowboy que anima a cidade e é muito famosa.

Recomendamos visitar Calgary no verão, pois o inverno aqui é muito rigoroso. Existem alguns passeios como o Heritage Park, a torre de Calgary, Prince Island, downtown, passear no rio que corta a cidade, etc. Mas o forte mesmo daqui é o passeio para as montanhas rochosas. Lá pode-se ir ao Banff National Park e Jasper National Park, onde existem paisagens de tirar o fôlego e lagos cor azul turquesa. Se for a esses parques os lugares obrigatórios para se conhecer são: Lake Louise, Moraine Lake, Emerald Lake, Peyto Lake, Johnston Canyon, Icefield parkway, Bow Lake, glaciers, etc.

UPA: No mês de dezembro existe toda essa coisa de natal, réveillon e família… Em termos de saudade, esse período é mais difícil para você? Ou é sempre igual?

ZL: Com a tecnologia tudo fica mais fácil, falamos com a família via Skype durante o ano todo e não é diferente nesse período. É claro que gostaríamos de estar perto dos nossos familiares, mas não ficamos tristes, pois sabemos que todos estão bem. É interessante que nesse período nos reunimos com os nossos amigos brasileiros que consideramos como nossa família. Talvez isso ajude a não ficarmos tristes.

Prince Island.

UPA: Você comentou um pouco sobre o inverno e eu pergunto: a sua relação com essa estação é amigável ou é sofrida? Você tem alguma dica sobre como não passar frio sem ter que usar várias roupas?

ZL: O inverno é realmente rigoroso aqui em Calgary. O que chamamos mesmo de inverno é o período de janeiro a março, mas vale lembrar que a partir de Outubro as temperaturas médias já estão abaixo de 10C e só vão subir acima disso lá para maio.

Muita gente nunca passou por tanto tempo com temperaturas baixas assim, mas posso dizer que a gente se acostuma com tudo! Nossa relação com o inverno é tranquila pois temos carros preparados (bancos aquecidos, controle remoto para ligar o carro a distância) e não dependemos de transporte publico. Não passamos frio em casa pois controlamos a temperatura no nível desejado e não ficamos muito tempo expostos.

As roupas do Brasil não são adequadas para o inverno daqui. É importante investir em roupas apropriadas para não ter que carregar o guarda-roupa junto com você. Quando vamos trabalhar geralmente temos uma blusa, uma jaqueta, um gorro, luvas e é só (mas não ficamos muito tempo fora). Uma diferença importante é a duração dos dias que passam a ser mais curtos e noites mais longas. Pode-se sair para trabalhar quando está escuro e sair do trabalho já escuro novamente. Muita gente fica deprimida sem poder ver a luz do dia.

UPA: A ideia que eu tenho do Canadá é muito próxima do conceito que eu tenho da Suíça, ou seja, um país com muita qualidade de vida e poucos problemas políticos, onde tudo funciona muito bem. Sendo mais ou menos assim, eu pergunto: você se vê voltando a morar no Brasil? Existe esse plano a longo prazo ou o seu desejo é de continuar aí e vir ao Brasil apenas para visitar?

ZL: Você está certo em relação a sua ideia sobre o Canadá. É claro que todo o país tem seus problemas, aqui se paga muito em impostos, o custo de vida não é baixo, o clima é bem frio, mas a desigualdade social, violência e corrupção são bem menores que as existentes no Brasil. Apesar de termos imigrantes de todo o mundo, a mentalidade que prevalece aqui é de se ajudar o próximo e não de tirar vantagem dele.

Não fazemos planos para voltarmos para o Brasil, sentimos que o Canadá é o nosso lar, mas esse pensamento é nosso e sabemos de muitas famílias que pensam diferente e pretendem voltar. Estamos sempre abertos a novas oportunidades, onde quer que elas estejam.

Heritage Park.

UPA: No que a vida mais te surpreendeu?

ZL: Para mim o que mais me surpreende é ver que quando colocamos nossas vidas nas mãos de Deus, Ele faz o melhor. Os objetivos que eu e o Arlei definimos para nós foram alcançados com sucesso em um tempo relativamente curto. Tivemos que nos esforçar, mas nunca desistimos e continuamos a lutar pelo que entendemos ser correto e importante. É triste ver pessoas sem objetivos, vivendo a vida por viver, gastando seus dias de vida com coisas sem valor e sem sentido. Se elas soubessem que com um pouco de esforço e dedicação poderiam conseguir tudo o que querem, mudariam seu comportamento rapidamente.

Bate-volta, Jogo Rápido

No Havaí.

Casamento: Dádiva.

Filhos: Planos.

Sobrinhos: Uma pena não poder passar mais tempo com eles.

Acarajé: Um já está bom demais!

Ex-presidente Lula: Assistencialista?

Havaí ou Los Cabos?Havaí, sem dúvida!

Um filme: Gifted Hands: The Ben Carson Story (Mãos Talentosas – A História de Ben Carson)

Dois livros: Bíblia e Born to Preach: From Canadian Prairie Boy to World Evangelist: The Henry Feyerabend Story

Três cidades que deseja conhecer: Sydney, Zurique e Mikonos.

E para terminar: o que diria numa palestra voltada a jovens que pensam em fazer intercâmbio no Canadá? Cuidado! Você pode se apaixonar pelo pais! (Risos).

Uzi Por Aí: Eu tenho certeza que só de ver suas fotos, muita gente já se apaixonou pelo Canadá. Ainda mais que o seu discurso funciona quase como uma fonte de motivação para quem pensa em ganhar a vida em outro país. Eu olho para você e o que eu vejo é uma pessoa feliz, que conseguiu realizar os sonhos, ou seja, é uma prova viva de que com esforço tudo é possível. Quero te agradecer novamente por compartilhar a sua história conosco e pelo otimismo que nos transmitiu. Obrigado.

E se você, leitor, quiser continuar babando com essas fotos da Mila que mais parecem uma pintura, é só acessar o seu blog pessoal: www.milaearlei.blogspot.com.

Então é isso. Próspero ano novo a todos e não percam no próximo mês uma entrevista direto de Budapeste. Até lá.

Mila e Arlei – Cenário de filme.

Categorias: Entrevista na Alfândega

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  1. Zé BastésResponder

    É impossível não ter pelo menos um amigo que foi morar no Canadá…

    • Uziel MoreiraResponder

      Parece que é verdade, Zé Bastés. Rsrs.

  2. LucianoResponder

    -30º, -40º….por mais estabilidade que um país possa oferecer, eu não me adaptaria a essas temperaturas, por mais conforto que carros e casas possam oferecer.

  3. Uziel SantosResponder

    Luciano, mas é aquela coisa: tudo na vida tem jeito. rsrsrs. Acho que me acostumaria ao frio, até porque o calor no Brasil é muito forte.