Como prometido na primeira parte, continuo a revelar informações acerca da novela “Betty, a Feia” que só descobri após vir morar na Colômbia.

Algo que esqueci de comentar no artigo anterior diz respeito às muitas cenas de serenatas apresentadas no decorrer da trama. No aniversário de Betty, por exemplo, Nicolas leva um grupo de mariachis para lhe fazer uma serenata, enquanto Armando, escondido dentro do carro, observa tudo com ciúmes.

Sempre achei que isso fosse coisa da novela, porém bem perto de onde eu moro tem um dos muitos locais em que os mariachis se concentram esperando chamados. Pode ser de dia ou de noite, é muito comum encontrar este tipo de músico ostentando sua roupa nada discreta e distribuindo seu cartão de visita para qualquer um que esteja passando pela rua. As serenatas na Colômbia estão longe de sair de moda.

Mas não foi apenas a vida real que influenciou o enredo de “Betty, a Feia”, vejamos a seguir a herança que a novela deixou para o país.

Betty e o Chapolin Colorado

A fama da Colômbia sempre foi das piores. Mais conhecida pelas FARCS, tráfico de drogas e violência generalizada, a nação colombiana era figurinha carimbada nas páginas policiais dos principais jornais do mundo.

No início dos anos 2000, época em que se passava a novela, a situação estava pra lá de Bagdá: escândalos de corrupção; mais de 60 mil pessoas mortas devido a guerrilha em 2001; sequestros diários; em 2002, até mesmo a candidata à presidência, Ingrid Betencourt, foi sequestrada. O cenário estava tão ruim que os bogotanos passaram muito tempo trancados na própria cidade. O único modo seguro de sair de Bogotá era por via aérea.

Cansados de todo esse horror, os colombianos mais do que nunca se apegaram à ficção, fazendo de “Betty, a Feia” uma válvula de escape. O autor Fernando Gaitán chegou a declarar que estava ciente disso e, justamente por esse motivo, não quis retratar a violência em sua novela.

A revista “Cambio”, até então dirigida pelo ganhador do Nobel, Gabriel Garcia Marquez, destacou a importância de “Betty” naquele período de chumbo: “Desde os tempos de Chapolim Colorado, não havia surgido uma heroína tão latino-americana, ou seja, tão anti-heroína. E por isso, esta feia valente, guerreira e mulher da classe média tem méritos de sobra para ser a personagem de um ano caótico, em um país onde poucos se atreveram a tanto” (tradução livre).

A comparação entre Betty e o Chapolin não poderia ter sido mais certeira. Isto porque a feia passou a defender o povo do clima de amargura que imperava no país. Não era à toa que todos paravam seus afazeres para, por meia hora, deixassem-se levar pela leve história da secretária excluída.

A Identificação

Além de ser um oásis na programação sanguinária da TV, os colombianos se viam representados na figura de Betty, identificavam-se. Sobre isto, Jorge Enrique Abello, intérprete do Armando, declarou: “Somos a ‘Betty, a Feia’ do mundo. Quando viajamos nos olham feio, nos pedem vistos, nos acusam de traficantes ou guerrilheiros” (tradução livre).

Assim sendo, podemos entender o porquê que os acontecimentos em “Betty” eram tão importantes para o país, afinal, a novela se tornou uma alegoria da Colômbia. Os problemas financeiros da Ecomoda eram vistos como uma representação da própria crise enfrentada pelo país, enquanto que Betty, a única que podia salvar a empresa, representava o povo colombiano, os únicos que podiam salvar a pátria.

Foi por conta desta identificação fora do comum que quando uma das empresas ofereceu a Betty suborno para que ela enganasse Armando, o presidente da época ligou para Gaitán pedindo que Betty não aceitasse a propina, pois se assim acontecesse, seria como reafirmar o quanto os colombianos são corruptos.

Sobre essa questão, a atriz Celmira Lozardo que deu vida à Catalina, exclamou: “Como estará mal o país que tem que buscar a reivindicação nas personagens de ficção” (tradução livre). Também sobre este tema, Germán Rey, um respeitado comunicador em Colômbia, indagou: “Por que nós colombianos somos tão moralistas na ficção e corruptos na realidade?” (tradução livre).

Ao final, após parecer que iria aceitar o suborno, Betty o recusa. Neste capítulo em que prevalece a honestidade da feia, o povo colombiano saiu às ruas comemorando nas praças e nos restaurantes, levantando a bandeira do país “como se fosse um ato real” (BARRERA, Marlene. Em tradução livre).

O Legado de Betty

Mesmo após o seu término, “Betty” continuou surtindo efeitos em seu país de origem. Ao ganhar o mundo, sendo exibida em diversos idiomas e ganhando remakes por todas as partes (inclusive no Brasil), finalmente a imagem da Colômbia foi exportada de maneira positiva, ganhando espaço até mesmo na página cultural do jornal britânico The Guardian.

Quanto mais se difundia pelo mundo, mais turistas motivados pela novela passaram a visitar o país. Paralelo a isto, o governo investia mais na segurança e também no turismo. Coincidentemente ou não, as coisas na Colômbia foram melhorando, no mesmo passo em que mais países passavam a se encantar com o ótimo roteiro de “Betty, a Feia”.

Pode-se dizer que a novela de certo modo aumentou a autoestima do país, fazendo parecer que era possível se tornar um lugar mais turístico, mais seguro. Hoje, a Colômbia nem de longe possui os mesmos problemas de 10 anos atrás e cada vez mais se firma como um destino que merece ser visitado, não só por suas belezas, mas principalmente pela receptividade do seu povo que está sempre “a la orden”.

Ainda há mais o que falar sobre Betty, continuamos na parte 3.


Categorias: Colômbia, Novelas, Televisão

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  1. FernandoResponder

    Você já viu também Pedro Escamoso? O que achou?

    • Uziel MoreiraResponder

      Oi, Fernando. Eu acompanhava “Pedro, o Escamoso”, até que a Rede TV tirou do ar. Achava muito engraçada. E o que mais gostava era da música de abertura.

      Esses dias passou na TV daqui um matéria sobre essa novela que fez muito sucesso na Colômbia. Em Bogotá, você tipos como o Pedro em quase toda rua. rsrs.
      Obrigado pela visita.

  2. João PauloResponder

    E pensar que quando Gaitán apresentou a sinopse dessa trama para a direção da RCN no começo dos anos 90, eles a rejeitaram, temendo que não fosse fazer sucesso… se enganaram redondamente, e o mestre deu a volta por cima, e taí o rebuliço que a singela (sencilla) historieta da feia fez. Eu tive o prazer de assistir quando passou na RedeTV! em 2002, foi amor à primeira vista (pela novela rsrsrs) e me enganchei na trama, até o desenlace – a aguardada transformação da nossa heroína. Quanto à mudança que a novela deflagrou na sociedade colombiana, é bem verdade o que você descreveu. Era um patinho feio que depois do tapa no visual – leia-se a novela – virou cisne. Bem que os outros países tentaram reprisar o sucesso, mas não tem pra ninguém: a colombiana foi e sempre será um passo para o sucesso (obrigado Carlos Aguiar).