Em um dos debates promovidos pelo Festival da Mantiqueira, realizado em junho de 2013, os escritores e roteiristas Lauro César Muniz, José Roberto Torero e Fernando Bonassi discutiram sobre a tumultuada relação entre literatura, cinema e televisão. Os discursos apresentados nessa mesa redonda reproduziram uma espécie de síntese do pensamento que predomina nesses três campos.

Ao ser questionado sobre as diferenças entre os códigos, o dramaturgo Lauro César Muniz (2013) comentou primeiro acerca da recepção: “São muito diferentes. O leitor acaricia o livro, dorme com o livro, é uma forma de fruição muito sensorial. O público do cinema é mais impaciente, quer ser conquistado logo”. Ao falar sobre a televisão, meio com o qual se tornou conhecido do grande público, principalmente após o sucesso da telenovela O Salvador da Pátria de 1989, Muniz (2013) escancarou o discurso valorativo, fazendo uma analogia de cunho escatológico para marcar o quanto desprestigia a arte televisiva: “Quando faço teatro, eu me isolo, não quero que ninguém se meta. Você não quer ninguém do seu lado quando está fazendo cocô. Mas quando estou escrevendo para televisão, pode ficar do meu lado. É só um xixizinho”.

O escritor José Roberto Torero (1999) – autor de O Chalaça, livro que “inspirou” o teledramaturgo Carlos Lombardi na realização de O Quinto dos Infernos, minissérie de 2002 – também possui trabalhos na área de adaptação. Sobre o fenômeno em questão, Torero (2013) comentou: “É excelente trabalhar com defunto. Machado é um cara sensacional e não reclama de nada”. No entanto, apesar de atuar como roteirista para o cinema e a TV, destacou sua predileção pela literatura, fazendo uma afirmação taxativamente hierárquica: “O personagem de cinema não pensa. Ele mostra o que é pela ação. Não há o pensamento, reflexão interior. Por isso o cinema é inferior à literatura. […] No livro você é sempre coautor. Você precisa imaginar as cenas, os personagens” (2013).

O escritor Fernando Bonassi (2013), que também possui trabalhos nas três plataformas, tentou explicar o porquê da literatura atraí-lo mais quando comentou sobre sua experiência ao roteirizar o filme Cazuza (2004), dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho: “No Cazuza, por exemplo, a mãe dele queria preservar o filho, o produtor queria vender ingresso e a diretora queria fazer um filme de arte. E você fica no meio disso tudo. Já a literatura é o lugar da pessoalidade, onde assino e ninguém interfere”.

A fala desses três profissionais da área serve como exemplo do cenário hierárquico em que essas artes narrativas estão inseridas. A literatura segue suprema no julgamento valorativo, como denota o discurso logofílico de José Roberto Torero, coincidentemente ou não, o que possui – entre os três – mais obras literárias no currículo. Se a literatura é oconcur em credibilidade e preferência artística, nas artes de caráter performático, também a escala hierárquica aparece. O teatro vem em primeiro lugar, como dá a entender o comentário de Lauro César Muniz, enquanto a televisão surge marginalizada na última colocação, e o cinema se mantém no meio-termo.

Nessa classificação dos quatro códigos, realizada por produtores, podemos inferir que a literatura é tida como superior por permitir maior liberdade artística, imaginativa, inúmeras possibilidades de conexões, construções subjetivas que visam à interiorização. Além disso, há a generalizada logofilia disseminada pela ideia de que a linguagem escrita corresponde ao que é culto e a linguagem oral ao que é indouto.

Por ser o teatro uma arte performática mais comprometida com a reflexão do que com a ação, e dada a sua subjetividade e produção de difícil realização em termos econômicos, exigindo motivações consideradas artisticamente mais nobres que a financeira, ele se aproxima do cerne da literatura. Herda uma espécie de aprovação, enquanto que o cinema – com sua objetividade – é visto com ressalvas, e a televisão – com seu ultranaturalismo, produção a toque de caixa e público de massa – é a mais distante dos preceitos da literatura, portanto, desprestigiada como arte. O fenômeno da adaptação entra no meio desta conflitiva relação hierárquica como um complicador, já que provoca uma ligação direta, que aponta para a equiparidade entre códigos, os quais, na prática, são valorizados desigualmente.

A superioridade axiomática da literatura e a inferioridade do cinema e da televisão, baseada em preconceitos primordiais como a iconofobia e a anti-corporalidade (STAM, 2006, p. 2 e 3), promovem o falso conceito de que a adaptação é o ato de se repetir histórias por falta de criatividade. Ademais, para uma parte da recepção, trata-se de um processo parasita de subtração, cujo produto final se mantém incompleto, já que não é puramente literatura nem puramente cinema nem TV.

Sobre esta questão hierárquica, Randal Johnson (2003, p. 41) sintetiza:

O problema – o estabelecimento de uma hierarquia normativa entre literatura e cinema, entre uma obra original e uma versão derivada, entre a autenticidade e o simulacro e, por extensão, entre a cultura de elite e a cultura de massa – baseia-se numa concepção, derivada da estética kantiana, da inviolabilidade da obra literária e da especificidade estética. Daí uma insistência na “fidelidade” da adaptação cinematográfica à obra literária original. Essa atitude resulta em julgamentos superficiais que freqüentemente valorizam a obra literária sobre a adaptação, e o mais das vezes sem uma reflexão profunda.
 

No entanto, esse problema não inibe a propagação do fenômeno em nossa cultura.

Trecho retirado da minha dissertação de mestrado.
SANTOS, Uziel Moreira. De Dom Casmurro à Capitu – Processo e Produto de uma Adaptação”. PUC-SP, São Paulo, 2014. Disponivel em: http://www.sapientia.pucsp.br/tde_arquivos/21/TDE-2014-03-25T11:42:14Z-14716/Publico/Uziel%20Moreira%20dos%20Santos.pdf

Categorias: Adaptação, Literatura

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