Quando trabalhava no site POP, escrevi um artigo intitulado “O Fenômeno ‘Betty, a Feia’”, nele contava curiosidades sobre o sucesso da novela. Devido a esse artigo, cheguei a ser convidado pela Rede TV para participar da divulgação da reprise. Por motivos de força maior não pude aceitar o convite, porém, como um bom fã, acompanhava todos os capítulos.

Quando a novela já estava pela metade, a Rede TV diminuiu o tempo de exibição. Sem paciência, passei então a ver o restante pelo youtube, em espanhol mesmo. Após revê-la até o fim, comecei a assistir aos episódios de “Ecomoda”, que é a continuação da novela em forma de série.

Mas para quem não entende o espanhol, ou não gosta de acompanhar pelo youtube, a boa notícia é que nesta segunda-feira (01/12), “Betty, a Feia” estreará no Netflix do Brasil.

Aproveitando a ocasião, e também o fato de eu estar coincidentemente morando na Colômbia, quero contar alguns detalhes sobre essa produção que nunca foram ditos em português, informações que eu só descobri e pontos que só vim a entender agora que estou vivendo em Bogotá.

Bogotá em “Betty”

Assim que cheguei ao aeroporto da capital colombiana, escuto um garçon se desculpando com um cliente: “Ai, que pena com usted”; no meu primeiro dia andando pelas ruas, ouço os comerciantes anunciando: “a la orden”; e num ônibus apertado, presencio uma universitária chamando o namorado de “Tan Bo”. Basta assistir a um capítulo em espanhol para ouvir todas essas expressões nos diálogos da novela. Foi então que percebi como “Betty” representou os bogotanos à risca, talvez por isso a trama pareça tão real.

Também foi após vir para Bogotá que entendi o porquê que Betty só pedia suco de amora. Em todos restaurantes ou padarias por aqui, você vai encontrar apenas cinco opções de suco: graviola, manga (que é o que eu sempre peço), limonada, maracujá e amora (pedi uma vez com leite, é bom).

comida bogotá

Suco de amora com leite e um típico almoço colombiano.

Como na novela, é também verdadeiro que o povo daqui é caloroso, louco e simpático (comprove vendo o vídeo que gravei do desfile em Bogotá). Do mesmo jeito que Betty foi acolhida no Quartel das Feias de forma instantânea, eu fui acolhido pelo Quartel da Poesia, um grupo de professores e médicos que se reúnem todas às quartas para discutir literatura. Por coincidência, eu cheguei ao grupo justamente no dia em que eles estavam discutindo sobre poesia brasileira.

Sucesso Econômico

Fazer amizade aqui é muito fácil. E com todo o mundo que eu converso, mais cedo ou mais tarde, o assunto desagua em “Betty, a Feia”, já que esta era até então a minha principal referência. O interessante é que se eu falo de “Betty” por um lado, os colombianos me falam de “Avenida Brasil”. Juntamente com “Xica da Silva”, a novela da Carminha é a mais lembrada por eles. As três tiveram sucessos similares. Inclusive, assim como “Xica da Silva” foi a responsável por dar uma sobrevida à Rede Manchete, “Betty” salvou duas emissoras da falência.

A RCN estava quebrada quando lançou “Betty”, por isso a produção começou de forma modesta e econômica. No Chile, a emissora que a transmitiu, também se salvou da extinção. Muito otimistas, os executivos esperavam uma audiência de 20 pontos para poder se manter no ar, no entanto, “Betty” alcançou 45 pontos, ficando em primeiro lugar já no terceiro dia de exibição. O sucesso foi tão grande, que a chilena, miss universo e quase primeira dama da Argentina, Cecília Bolocco, lançou uma paródia em seu programa, além de fazer uma participação especial na novela.

Prêmios

Merecidamente, “Betty, a Feia” levou os troféus mais importantes de toda premiação televisiva na época. No India Catalina, ganhou em 5 categorias: Melhor Movela, Melhor Roteiro, Melhor Atriz (Ana Maria Orozco, a Betty), Melhor Ator (“Jorge E. Abello, o Armando) e Revelação (Julio César Herrerra, o Fred).

Já na premiação do jornal “El Tiempo”, que elege os melhores através do voto popular, “Betty” ganhou como: Melhor Novela, Melhor Diretor, Melhor Roteirista, Melhor Ator (Jorge Abello), Melhor Atriz (Ana Maria Orozco), Melhor Ator Coadjuvante (Mario Duarte, o Nicólas) e Melhor Atriz Coadjuvante (Lorna Paz; Patrícia, a “oxigenada”).

Mas não é apenas pelos feitos comerciais e artísticos que “Betty” se tornou este fenômeno. No próximo post, contarei sobre as polêmicas políticas, a revolução no mercado latinoamericano, os efeitos antropológicos, os conflitos sociológicos e os avanços turísticos gerados pela novela.

Por hora, posso garantir que nenhum outro folhetim no mundo teve tanta responsabilidade na mudança de um país quando “Yo Soy Betty, la Fea”.


Categorias: Colômbia, Novelas, Televisão

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  1. cintiaResponder

    Que post lindo, adorei!!!!

    • Uziel MoreiraResponder

      Obrigado, Cintia. Os bastidores da novela é realmente interessante.