Todo início de ano geralmente eu viajo, mas de outubro pra cá eu peguei uma leva de pacientes tão depressivos que resolvi ficar para não correr o risco de ser acusado de homicídio culposo, caso alguns deles se jogasse no Tietê.

Parece até que eu estava adivinhando que às 8 da manhã, a paciente (que aqui chamarei apenas de Tortuguita) iria me ligar soluçando e implorando para que eu a visse. Perguntei qual era o motivo de estar tão chorosa, ao que ela me respondeu com muita economia e reticências: “É… Assim… Sabe… Tipo… Réveillon… Dilma… A posse…”.

Eu que a essa hora estava decaindo de sono a interrompi dizendo que poderia encontrá-la no consultório às 10:30. Após uns 20 segundos ela proferiu uma penosa confirmação: “Tá… Bom, então…”. Como não sou besta, desliguei antes que ela gemesse mais alguma palavra.

Meus professores da PUC que me perdoem, mas eu fui me encontrar com a depressiva com uma má vontade tão grande que só não ficou visível graças ao curso de atores que fiz no Wolf Maya.

Comecei: “Então, o que aconteceu? O que você quer me contar?”. Logo me lembrei do porque eu a havia apelidado de Tortuguita. Em dias normais, ela já falava devagar; em dias depressivos, entre uma frase e outra dava para assistir a um episódio de “The Walking Dead”. Praticamente uma terapia com zumbi.

Depois de exercitar muito a minha paciência, ela engatou a segunda: “Fins de ano… Pra mim sempre foram difíceis, sabe?! E esse… Foi pior. Aí pra completar… Vem a posse da Dilma… Sabe?! Mas quatro anos do Brasil… Na mão dessa mulher… Desse partido…”. Ela fez uma pausa mais longa para limpar as lágrimas, aproveitei a deixa: “Mas olha só, você não pode trazer pra si todo problema do Brasil. E de mais a mais, como disse uma amiga minha no Facebook: ‘Dilma não é o Diabo e Aécio não é Jesus‘”.

Ela deu uma fungada forte no nariz e eu quase ri ao pensar que a fungada era uma homenagem ao seu candidato. “Eu sei… Mas é que… Tipo… Não sei se você vai entender… Eu quero dizer…”. Foi inevitável não cantar mentalmente: “Agora o oposto do que disse antes”. Controlei a cabeça e prestei atenção. Ela continuou: “Me deu assim um… Vazio, sabe?!… São mais quatro anos disso… Aí me bateu uma desesperança…”. O nariz dela voltou a fungar e eu por fim captei qual era o problema.

Depressão é uma coisa tão chata quanto séria. É mais ou menos assim: se o sol se põe às 6 da tarde, desde o meio-dia o depressivo já vê tudo escuro. A paciente estava vendo a posse de Dilma como um indício de que sua vida continuaria igual, uma comprovação inconsciente que seu pessimismo tinha razão de ser, um argumento de apoio para legitimar a ideia de que não adianta lutar. E foi essa perda total de esperança interna que lhe causou o desespero.

Devagar, como de costume, ela concordou com tudo que eu disse e foi embora disposta a trabalhar suas emoções, tendo agora em conta o conhecimento sobre como sua mente está funcionando de forma autosabotadora. É claro que ter consciência disso não será o suficiente para sair da depressão, o processo também é lento como uma tartaruga.

Uma semana depois a reencontrei e ela me disse que para trabalhar o pensamento positivo havia comprado todos os livros de Augusto Cury. Dessa vez fui eu quem liguei pro meu psicólogo.

Curta-nos pelo Facebook: www.facebook.com/uziporai
Siga-nos pelo Twitter: www.twitter.com/uziporai
Admire nossas fotos pelo Instagram: www.instagram.com/uziporai

Categorias: Conto

Deixe seu comentário

  1. AmandaResponder

    Hahaha, muito bom. Triste para o psicoterapeuta, ótimo pro Augusto Cury e alívio temporário para a paciente, rs