Viajar sozinho me regalou uma das coisas que mais gosto de fazer: pensar na vida, refletir sobre os momentos já vividos e dialogar à la Aristóteles comigo mesmo. Como pronunciaria Gilda, em meio a tanta ‘penssanção’, chega-me um turbilhão de questões animadoras e respostas sem conclusão.

Esses dias novamente conversei com Milena, a colombiana com quem mantenho uma relação filosófica. O tema do papo cabeça dessa vez foi “filhos”. Mais do que Freud tenho pensado muito sobre o assunto. O que é ser pai? Depende muito da personalidade do progenitor. Conhecendo a minha tão bem, parece-me algo fora do comum.

Veja bem, ter filho é como ver um filme do Hitchcock: você não sabe o que é que vem pela frente. É certo que o meio e a educação podem moldar a cria de acordo os seus interesses, mas às vezes, pode nascer um ser que vai pensar totalmente diferente de você e aí já não se pode devolver.

Anne Frank, por exemplo, era o completo oposto dos seus parentes, caso não tivesse morrido, provavelmente seria a ovelha negra oficial da família. Em um caso mais atual, tiro por mim que nasci cigano no meio de uma plantação de raízes. Reza a lenda que puxei ao meu tataravô, o qual não ficava parado em lugar nenhum e acabou morrendo longe dos seus, numa cama que não era a sua.

Imagino que para os pais, principalmente para os que enxergam o filho como uma extensão, deve ser chato quando este rompe a continuidade, bate o pé e diz não quero. Eu mesmo ficaria P da vida: criei, gastei, me dediquei e depois ele vem desobedecer todo o meu querer?! Sem contar que mesmo me contrariando em tudo, por filiação sou obrigado a me preocupar até o fim dos meus dias. É um trabalho tão ingrato quanto ao do professor.

Durante o ensino fundamental, enquanto estudava visando um dia herdar o negócio da família, ouvia sempre Suzane cantarolar: “minha vida cigana me afastou de você”. Nos sete anos em que estudei com ela, estes versos foram repetidos à exaustão e acabaram ficando no meu subconsciente, tanto que recentemente me peguei lembrando-os e constatando que minha vida cigana realmente me afastou de muita gente, de muitos conceitos e até mesmo de muita coisa que antes julgava importante e que hoje não me fazem falta.

Conheço bem as desvantagens que esta sina de cigano trouxe a mim e aos que me querem por perto, enraizado. Mas nem tudo é negativo, o verso anterior da música deixa uma síntese menos desestimulante: “Saudade existe para quem saber ter”. Depois de tantas viagens e mudanças, aprendi a ter saudade e a extrair dela muitas vantagens, exercitar o pensamento é uma delas.

Não há o que fazer. “Eu já estou com o pé na estrada, qualquer dia a gente se vê”. Aproveite-me hoje, porque se o ontem chegar, já posso ir embora amanhã. Sou cigano.

(Foto: Farol da Barra, Salvador)
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Categorias: Crônicas

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  1. EdsonResponder

    Reflito muito nessa questão de ter filhos, ainda sou novo, mas penso o oposto de minha família, onde o certo pra eles é – estudar, faculdade, casar e ter filhos… quando falo que não pretendo ter e mudar um pouco essa rotina, ouço muito kkk. Acredito que deve ser uma sensação fantástica ter filhos, penso que tudo tem uma consequência boa ou ruim, dizem ser um presente divino, mas como todo bom presente não pode ser devolvido, caso não goste mais.