Foi com o melancólico e cruel “Amores Perros” que o diretor Alejandro González Iñarritú e o roteirista Guillermo Arriaga ganharam projeção internacional. Juntos ainda fizeram o angustiante “21 Gramas” e também o interessante “Babel”. Após esta exitosa trilogia, a parceria entre Iñarritú e Arriaga se rompeu por, dizem as más línguas, embates de egos.

Seguindo cada qual o seu caminho, ambos realizaram trabalhos de repercussão menor, porém, agora com “Birdman”, filme indicado a 9 oscars e ganhador do Globo de Ouro como Melhor Roteiro Original, Iñarritú lavou a alma e provou que não precisa do ex-parceiro para produzir grandes sucessos.

Escrito a oito mãos, o enredo de “Birdman” se desenvolveu de forma despretensiosa, o intuito dos roteiristas era criticar em tom jocoso a indústria cinematográfica e seus profissionais decadentes, como é o caso da personagem Riggan Thomson, um ator que já fora bastante famoso no tempo em que interpretava o super-herói que dá título ao filme, mas que agora tenta se manter na mídia através de uma peça de teatro adaptada, dirigida e protagonizada por ele.

O ego de Riggan é uma representação do ego de Holywood, da inveja que predomina no meio artístico e do custe o que custar para prolongar a fama. Bastante apropriada e espirituosa, essa dramédia é em suma uma metalinguagem escancarada dos acalorados bastidores do cinema.

critica birdman

Uma das melhores cenas do filme: Riggan discute com a crítica da Times.

Embora muito mais leve que seus filmes anteriores, a mão pesada de Iñarritú ainda está presente. Além do seu invencionismo característico, que dessa vez entrega um longa cheio de planos sequências, isto é, cenas sem cortes; o diretor mexicano também carrega na introspecção, fazendo do seu humor o mais negro e depressivo possível.

Tecnicamente impecável, diálogos bem escritos e atuações competentes -talvez seja dos filmes indicados o que melhor aproveita o seu elenco, já que todos os atores têm seu momento de glória -“Birdman” apresenta um conjunto deveras funcional, o que pode explicar as 9 indicações.

No entanto, parece faltar ao filme carisma. Com tanta metalinguagem crítica e motivações mesquinhas, a empatia se perde, fator este extremamente importante para que o público se deixe convencer por uma comédia com toques surreais.

Comparando com uma produção de gênero parecido, como por exemplo, “Meia-noite em Paris“, fica explícito o quanto carece “Birdman” de simpatia. Enquanto que o visual, as atuações e todo surrealismo da obra de Woody Allen faz o espectador comprar a maluquice da situação e até mesmo a crise artística de sua personagem principal, o mesmo não ocorre com a proposta de Iñarritú, que talvez seja autocrítica demais para gerar o nível necessário de cumplicidade.


Categorias: Oscar

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