Séries – Black Mirror: Análise dos Episódios 1 e 2 da 3ª Temporada

Séries – Black Mirror: Análise dos Episódios 1 e 2 da 3ª Temporada

Finalmente a genial série do escritor Charlie Brooker está de volta e desta vez com 6 episódios devidamente carimbados com o selo Netflix de qualidade. A verdade é que esta 3ª temporada não se distancia tanto das anteriores em termos técnicos, mas houve sim um upgrade. Já no que diz respeito ao roteiro,  embora nenhum episódio desta safra seja tão apoteótico quanto  o segundo da 2ª temporada, e o primeiro da 1ª season o conjunto final é positivo.

Dos 6 programas, 4 são ótimos, 1 é apenas bom e 1 fica abaixo da média. Falarei de todos, até porque Black Mirror exige uma análise interpretativa digna de um texto da alta literatura. Para que os posts não fiquem imensos, dividirei as críticas em 3 artigos. Comecemos.

Episódio 3×1: Perdedor

O futuro retratado em “Perdedor” já começou, mas obviamente de forma menos radical, até porque o que a série propõe é colocar uma lente de aumento sobre o presente para que assim vejamos os nossos defeitos.

Num mundo em que é possível qualificar – a cada encontro, ou post na internet – qualquer pessoa com notas de 0 a 5, ser bem avaliado é o mais importante para ser alguém de sucesso. Lacie (Bryce Dallas Howard, impecável no papel) tem uma média de 4.2, mas ela quer alcançar 4.5, pois só assim estaria apta para alugar uma casa num condomínio de luxo, no qual só podem morar os que têm notas acima deste número.

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A cada post que Lacie faz na sua rede, ocorre a ansiedade pelas notas, que trazendo para nossa realidade podem ser vistas como número de curtidas, comentários… No mundo de hoje, quem não é popular na rede é tido como inferior.

Infelizmente essa busca desesperada da personagem por bons números é mais do que real. A sociedade exige isso. Eu mesmo sofro desse mal. No mundo dos blogueiros, quem tem menos de 20 mil acessos mensais não tem muita moral no mercado. Eu com os meus 60.000 mensais estou fazendo de tudo para chegar aos 100, marca que me colocaria numa situação mais confortável para fechar negócios.

O número de curtidas é outro fato que influencia muito, por isso, por favor, quem ainda não segue o blog, deixe seu like no botão abaixo.

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A questão das avaliações também já é uma realidade. Toda vez que eu me hospedo na casa de alguma pessoa pelo Airbnb, eu avalio o anfitrião (com estrelas, igual como na série) e ele avaliam a mim. Pegando carona pela Europa, o sistema de avaliação por estrelas também acontece. Eu sempre avalio os motoristas com nota 5, até para que eles possam me dar a mesma nota, afinal a avaliação é importante para conseguir estas caronas no aplicativo da Bla Bla Car.

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Na Romênia, um maledito, depois de eu o ter valorado com 5, avaliou-me com apenas 3 estrelas e com o seguinte comentário: “É um cara ok”. Acontece que ele era dono de uma agência de turismo na Transilvânia, ofereceu seus serviços, mas eu não o contactei e ficou com raiva.

Vi-me na mesma situação da personagem quando ela reclamou com o cara do posto de recarregar veículos por ele ter lhe dado 3. Só que diferente dela, eu optei por aceitar a nota calado, embora ainda esteja retado.

No meio da jornada, Lacie encontra uma senhora que tem uma pontuação de apenas 1.3, o que me pareceu uma representação daqueles que não ligam para o quanto são populares e que inclusive são da filosofia que o melhor é viver sem a preocupação de como os outros lhe valoram.

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Lá pelo fim, após perder completamente as estribeiras e chegar à pontuação zero, a personagem é presa, e de frente para sua cela de vidro está um cara que também tem zero. Os dois então começam a se xingar dos piores nomes e da maneira mais gratuita que existe.

Esse final é a cereja do bolo. Na visão de Charlie, estes zeros cibernéticos é o que faz a pessoa se tornar um hater, aqueles anônimos que se julgam protegidos por uma redoma e por isso pensam que podem atacar sem medo, até porque não têm o que perder, sem falar no sentimento de inveja e revolta que possa haver por não fazer parte do grupo dos que são (ou que se acham) populares neste louco mundo de aparência e pretensão.

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Episódio 3×2 – Versão de Testes

A crítica em “Versão de Testes” parece óbvia, mas não é. Diferente do que se pode pensar, a acusação aqui não vai propriamente contra os jogos de videogames e sim às empresas que agem de forma cruelmente capitalista, além de não economizar críticas também aos indivíduos que optam pela realidade simulada em detrimento das relações genuinamente reais.

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Copper não é necessariamente um gamer, ele se inscreve no teste apenas porque precisa de dinheiro, já que a conta do seu banco foi estranhamente clonada e esvaziada. Mesmo com a opção de ligar para sua mãe e pedir uma grana emprestada, ele prefere manter o afastamento entre eles. Esta escolha é bastante significativa se pensarmos que passar horas jogando é um modo de se distanciar de todos que o cercam, incluindo os que residem na mesma casa.

Embora a assistente do criador do jogo advirta o americano sobre o quão intensa pode ser a experiência, ele desdenha completamente. Toda ação seguinte acontece num intervalo de poucos milésimos. Esse tempo mínimo parece dizer como os efeitos fatais de um jogo de supra-realidade podem surgir mais rápido do que se espera.

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Embora matá-lo não fosse a intenção da empresa, não há por parte dono nenhum tipo de choque ou sentimento de culpa. Há poucos dias saiu a notícia de um adolescente no Brasil que se enforcou após ter perdido no League of Legends, fica então a dúvida: quem é o culpado da tragédia?

O game por si só não pode ser o responsável, como bem diz a assistente várias vezes ao jogador: “não há dor física, pois tudo não passa de gráficos”. Ainda assim, o protagonista morre. Fica então evidenciado que o criador do jogo não tem domínio sobre os seus efeitos, afinal, a forma como os seres humanos experimentam a tecnologia é que pode ocasionar as tragédias, e não a tecnologia em si.

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Por fim, chama atenção que o erro que ocasionou a morte da cobaia foi a interferência do celular quando a mãe dele ligou pela centésima vez na esperança de ser atendida. Aqui se chega ao ponto aparentemente pretendido por Charlie: o estremecimento das relações humanas, incluindo das mais próximas (como a de mãe e filho) não é o único fator, mas é o que desencadeia a trágica interatividade do homem com a máquina/tecnologia.

E se você gosta de antologias e narrativas diferentes, confira minha versão “tragi-cômica-romântica” de Black Mirror: História Real de uma Vida Amorosa Desastrosa.

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