Essa história aconteceu na Bahia.

Camila era uma dessas menina que valem ouro, mas que tinha o dedo podre.  Com 25 anos, o caderno da sua vida amorosa possuía 9 nomes, e desses 9 nenhum valia mais que 1,99. O dono da primeira boca que beijou se chamava Felipe, na época ele tinha 10 e ela 9. O relacionamento só durou 4 beijos, pois o menino disparou: “Já tá bom. Tua boca tem um gosto estranho” e saiu em disparada para contar aos amigos que ela não escovava os dentes direito.

Camila ficou tão traumatizada com a situação que só voltou a beijar novamente quatro anos depois.Foi numa festa de adolescentes sem os pais presentes. Ela beijou o Paulo, o qual por sua vez ficou com ela e mais duas na mesma noite. A pobre foi dormir arrasada.

Durante o 2º ano do ensino médio, ela ficou com 3 que não quiseram dar continuidade, e passou 2 meses com um primo que não quis assumir o romance com medo da família criar problema.

Aos 17 anos conheceu sua sétima tentativa de ser feliz no amor: Rodrigo. Estudavam na mesma sala, faziam todos os trabalhos em dupla e para fechar o colegial com chave de ouro passaram a formatura feito um casal. No álbum, com os dois de beca, teve até foto deles se beijando.Tudo caminhava para um casamento após o fim da faculdade.

O problema foi que o rapaz a traiu com a universidade inteira, e como é usual nestes casos, ela foi a última a saber. Sentindo-se o mosquito que cheira a bosta do cavalo do bandido, Camila decidiu que passaria um longo tempo sem ficar com ninguém. No entanto, não cumpriu a promessa, pois um dia andando pelo campus encontrou Beto Jamaica (apelido principal) chorando e o seu coração não resistiu.

Joilson, vulgo BJ pros mais íntimos, era uma pessoa que nem parecia ser uma pessoa, estava mais para um alienígena, ou um ser humano abduzido pelos Ets, isto porque ele vivia em outro órbita, possivelmente efeito do excesso de maconha na corrente sanguínea. “Tá chorando porque Beto?”, perguntou sentando ao lado dele. “As pessoas são muito falsas cara, as pessoas são muito irreais, muito surreais na falsidade, muito julgadores”.

BJ era um incompreendido, alguém com muito potencial, mas igualmente subestimado, diminuído, desacreditado, ele só precisava de alguém ao seu lado para se tornar um homem centrado, um estudante esforçado… Camila tomou essa missão para si.

Dos pais dela ao reitor, ninguém aprovou ou entendeu esse namoro. “Ele não tem nada a ver com você, Ka”, disseram as amigas. “Não acredito que tu tá namorando com o doido do Beto Jamaica”, disseram os colegas. O único parabéns que ela ouviu sobre sua nova relação partiu da professora de Física Acústica: “Graças a você, ele tá entrando nos trilhos, ele está outra pessoa”.

Talvez por conveniência foi esta a voz que Camila mais ouviu. Estimulada então a continuar a mudá-lo, ela estava sempre ao seu lado vigiando, aconselhando, proibindo, repreendendo, recompensando-o quando ele fazia o certo. BJ aumentou as notas, passou na matéria que havia perdido no semestre anterior, cortou o cabelo, diminui a maconha e três anos depois, já perto da formatura, ele terminou o relacionamento dizendo que ela merecia alguém melhor.

Camila não aceitou o rompimento e se pôs a convencê-lo de que ele não era tão ordinário como os outros pintavam: “Você me merece sim, deixe de baixa autoestima”. O caso é que ela só veio a entender  o quanto estava sendo inocente quando ele jogou as cartas na mesa: “Eu cansei de não ser eu, você não me deixa eu ser eu”.

Ela prometeu mudar, assumiu os erros, jurou ser menos general, mas já era tarde demais, Beto Jamaica já a havia trocado por uma loira vesga com quem fora morar junto ao descobrir que ela estava grávida. Casaram dentro de 3 meses, enquanto à Camila lhe sobrou chorar pelos “3 anos jogados no lixo”.

Após o fim da faculdade, vida nova. Arranjou emprego em outra cidade, alugou um apartamento só para si e entrou no Tinder para conhecer os locais. Deu match com Luciano, um rapaz que era o oposto de BJ: certinho, cabelo partido de lado, cara de mauricinho e voz de palestrante.

O primeiro encontro foi num restaurante, naquela noite só teve um beijo. A segunda vez rolou uns amassos no carro após o cinema. Na terceira, ele conheceu o apartamento dela após jantarem no indiano, tudo parecia estar perfeito até que o rapaz perguntou onde era o banheiro e lá passou 50 minutos sofridos. Foi embora tão envergonhado pelo intestino que nunca mais voltou dar as caras.

Por fim, Camila resolveu que esqueceria estas coisas de amor, o negócio era entrar no mundo dos encontros ocasionais, chega de problema. “Vou pegar sem me apegar”. E para começar essa nova filosofia de vida levou para a cama Inácio, um rapaz que embora fosse dois anos mais velho, ainda estava estagiando e já tinha uma noiva. “Problema dela”, pensou a nova mulher sem coração.

A primeira noite foi inesquecível do ponto de vida sexual, só por isso ela pediu bis. Como a casa dela ficava ao lado da clínica em que trabalhavam, ele pediu para dormir lá num dia em que seu turno terminava às 3 da manhã. Devido ao sexo e à comodidade geográfica, a relação foi se aprofundando de tal forma que quando Camila se deu conta que já estava apaixonada.

O noivado dele ia de mal a pior, como ela pôde ver ao bisbilhotar o celular, era uma questão de tempo para Inácio larga a dita cuja. Passaram-se meses doces, intensos, promissores. Ele era atencioso, mesmo ganhando pouco sempre a levava presentes, que embora simples demonstravam a gratidão dele por toda a ajuda. Já não havia dúvida: o noivado só continuava porque ele era bonzinho demais para colocar um ponto final, ele era do tipo que não gostava de fazer os outros sofrerem, praticamente um santo incapaz de ferir os sentimentos alheios.

De propósito, Camila deixou um rastro do romance secreto no celular dele, tinha certeza que a noiva também fuçaria o aparelho e assim terminaria tudo. De fato a traída descobriu da mesma forma que a amante, enquanto preparava uma sopa, também fez uma descoberta: era uma completa idiota.

“Oi, amor”, disse ela atendendo à chamada. “Amor é o C***. Você tirou foto nossa com o meu celular pra ela ver e terminar , não é? Mas fique sabendo que entre você e ela, eu fico com ela, sua metida do C***. Vai tomar no C***, sua filha da P***. Nunca mais fale comigo, hoje pra mim você morreu. Vá pra P***”, e desligou na cara dela.

Em choque, Camila começou a chorar, de todas as decepções amorosas que sofreu, esta foi a mais violenta. Humilhada no nível mais alto, ultrajada, enraivecida consigo mesmo… Tentou voltar à preparação da sopa, as lágrimas passaram a lavar os legumes…

Tomada pelo ódio crescente de ser tão idiota foi descontar na carne a ser cortada, com toda a força desceu a faca sem perceber que sua outra mão  estava apoiada sobre o mesmo tabuleiro. Deu um grito de morte que assustou todos do prédio e caiu ao chão desmaiando em seguida. Horas depois acordou com o dedo indicador amputado, o único que gangrenou, e também com um médico jovem, bonitão e solteiro ao seu lado lhe perguntando como se sentia.

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Categorias: Conto, Vida Amorosa Desastrosa

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