Séries – Black Mirror: Entendendo o Episódio 4 da 3ª Temporada

Séries – Black Mirror: Entendendo o Episódio 4 da 3ª Temporada

Sempre digo que em Black Mirror nada é o que parece, pois todos os roteiros são escritos numa linguagem alegórica, dialógica e literária, ou seja, tudo é manipulado e os significados estão colocados em camadas que contêm espaços lacunares/vazios para que o espectador se sinta desafiado a ultrapassar a camada da superfície, e assim tentar preencher o que falta.

Toda essa equação faz com que nenhum episódio seja finito em termos de significação, o que por sua vez resulta num texto perene, isto é, daqui a 30 ou 200 anos Black Mirror continuará mais atual do que nunca. A imagem pode envelhecer, mas o conteúdo estará intacto.

Dito isto, vamos à análise do episódio 4 da 3ª temporada.

Episódio 3×04: San Junipero

Brincando com a própria estrutura da série, somos levados aos anos 80 e não a um futuro, seja ele próximo ou distante. Até a metade este episódio funciona quase como uma pirraça ao público. Quando surge a primeira tela preta para indicar uma passagem de tempo, somos levados a crer que virá uma frase do tipo “50 anos depois”, ou “muitos anos depois”, porém, após se aproveitar da expectativa do espectador, o crédito anuncia apenas “uma semana depois”.

Essa quebra de condicionamento por nossa parte evidencia o quanto a série se desenvolve sobre o ato de desautomatizar. O roteiro nunca vai em direção ao que o espectador espera, pelo contrário, ele desconstrói qualquer conceito preconcebido que tenhamos em relação à história.

É por causa disto que diferente do que a maioria pensa, o final de San junipero não é feliz, até pode parecer, mas não é, a menos que o seu conceito de felicidade se encaixe dentro daquilo que o episódio critica:  a preferência pela vida virtual em detrimento do que é real. Mas vamos por parte.

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Yorkie é uma jovem branca, com óculos de nerd e jeito de quem é certinha demais, já Kelly é afor com ares de tropicana bem pra frente, sensual, sexualmente liberada, do tipo pega homem e mulher, mas sem se apegar. As duas se encontram em um bar de San Junipero, uma cidade de sol, praia e diversão, praticamente uma Ibiza.

Perceba que até aqui os papéis são bem definido e de fácil assimilação. Após a primeira noite juntas, a loira se apaixona, enquanto que a outra nunca mais dá notícia. O roteiro manipula o espectador a torcer pela relação, tanto que a escolha de ser duas mulheres não parece ter sido aleatória, afinal, romance entre duas garotas bonitas e femininas tendem a ser melhor aceito do que relações entre dois homens.

Quando elas enfim se reencontram e resolvem as pendências, é revelado para o público que as duas na realidade são idosas, a Yorkie está em estado vegetativo no hospital, e a Kelly num asilo de elite. San Junipero então é o espaço da dimensão virtual em que as duas são levadas pela tecnologia. Nesse lugar virtual, existem as personagens permanentes que são aquelas que já morreram na vida real, mas que deixaram o seu avatar viver eternamente neste software.

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Kelly decide visitar a namorada no mundo real, e para sua surpresa, a verdadeira Yorkie não fala, não se move e já está com o casamento marcado com o seu próprio médico para que ele possa autorizar a eutanásia. Pelo afeto que criaram virtualmente, Kelly decide se casar com a moribunda e autoriza o fim da vida artificial.

Já morta, Yorkie, que agora é uma permanente de San Junipero, pede a Kelly que ela também seja uma permanente, pois assim as duas poderiam viver virtualmente por toda a eternidade. Ocorre que Kelly tem uma filha e um marido que já estão mortos, e que não fazem parte deste programa.

Depois de muita briga e indecisão, por fim, a morena escolhe continuar em Junipero mesmo após morrer, e é por isso que muitos veem o episódio com um final feliz, já que as duas poderão viver eternamente ainda que só no plano virtual.

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Bom, temos aqui de entrada, uma observação: vivemos cada vezes mais no mundo virtual. O site Second Ligfe está aí para provar que já existe quem prefira viver apenas no âmbito cibernético. No entanto, podemos trazer isto ainda mais para a nossa realidade se pensarmos que o Facebook, Instagram, chats, fóruns, já são uma forma de ser um outro, os perfis fakes que o digam. Você pode ser judiado fisicamente, mas isso não impede de colocar no perfil uma foto de alguém lindo.

Black Mirror reflete esta preferência do público pelo virtual quando torcemos para que Kelly permaneça com a Yorkie em Junipero, tem aí um, nem que seja de forma inconsciente, o conceito de que para a maioria dos espectadores é mais fácil continuar torcendo pela união delas no plano em que são lindas, do que no lado real em que são doentes e idosas.

O estado vegetativo de Yorkie, que é justamente a personagem que não tem dúvidas nenhuma de que quer continuar em Junipero, inclusive ela tenta até evitar um encontro real com a namorada, é uma alegoria bastante cruel e verdadeira: viver apenas no mundo encenado da tecnologia é como estar num estado vegetativo, plantado e sem movimentos frente à tela de um computador/celular, na qual se resume sua vida.

A escolha, portanto, de Kelly representa o quanto cada vez mais estamos trocando as emoções reais (sejam boas, ou más) por uma felicidade artificial. E como pode a felicidade existir numa série de algarismos manipulados por um software?

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A  prova de que o final aqui não é feliz, pelo menos não no modo de ver do autor, está no momento em que após o reencontro solar e derradeiro das garotas, corta-se de forma seca e alternada para a imagem de um robô coordenando o computador que fabrica a irreal Junipero, e o último quadro dá um zoom nas peças que as faz parte do software.

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2 Responses to Séries – Black Mirror: Entendendo o Episódio 4 da 3ª Temporada

  1. Renato says:

    Cara, li suas opiniões desde a 1° temporada e todas elas são muito boas.
    Parabéns.

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