Perrengue de Viagem – A Misteriosa Mulher que Transava Feito uma Cabra Louca

Perrengue de Viagem – A Misteriosa Mulher que Transava Feito uma Cabra Louca

Em Bogotá, eu morei por alguns meses num prédio de três andares com várias suítes e pequenos studios. Pois bem, tudo parecia ótimo até que numa noite comecei a ouvir gemidos escandalosos, parecia que a mulher estava transando com um elefante.

Noite após noite o escândalo foi se repetindo e sempre por volta das 23h que era o horário que eu costumava dormir.  Como paciência tem limite, não deixei a situação passar em branco. No dia seguinte fui conversar com o holandês que vivia na suíte de cima, a fim de reclamar do exagero que a namorada/amante dele estava fazendo.

“Hola, Ben. Tienes ahora una novia, verdad?!”, ele me olhou assustado e gaguejou dizendo que não. “No importa si es novia, no tengo nada a ver con tu vida, pero es que esta chica que tú estás trajiendo a la casa…”, os olhos dele esbugalharam ainda mais e me interrompeu dizendo que não havia trazido ninguém. Como eu sou baiano, e por isso mesmo indiscreto, rasguei logo o verbo: “No era usted que estaba follando [transando] con un chica ayer [ontem] por vuelta de las 11?”

O holandês ficou da cor de um pimentão e me disse com o maior pesar que já fazia meses que não transava. Para contornar o embaraço, perguntei então se ele havia escutado a safadeza e me respondeu que não, pois antes das 10 já estava dormindo. Foi então a minha vez de ficar sem graça.

No segundo andar, além do holandês, morava o senhor Rafael, um aposentado com mais de 70 anos, ou seja, também não era ele. Outro que lá vivia era um padre russo. Sabia que não poderia ser, mas para ajudar na investigação o perguntei se não havia escutado a mulher. “No, amigo Brasil. Yo duermo muy temprano [muito cedo]”.

A única pessoa que restou foi uma colombiana meio alternativa que morava ao lado do padre. Pensei: só pode ser ela. “Hola, Mari. Nunca más te vi, estabas aquí anoche [ontem à noite] por vuelta de las 11?”. “Sí, a las 9:30 ya estaba dormiendo, por qué?”. Parei de jogar verde e falei o que estava acontecendo. Ela reafirmou que não ouvira nada nem ontem e nem em qualquer outro dia.

Sem sucesso, outra vez ouvi os gemidos escabrosos da misteriosa ninfomaníaca. O problema é que quando eu saia para o corredor, não escutava mais nada, era audível apenas dentro quarto. Fazendo o Sherlock, cortei da lista de suspeitos o vizinho advogado, pois ele não estava em Bogotá numa dessas noite, e cortei também as duas primas que moravam no studio de trás.

Sobrou o casal da frente, e realmente: “como não pensei nisso antes?!”. Todas as noites eles tomavam uma cerveja após o trabalho, vai ver por isso que a menina perdia a noção. Encontrei-os fumando na entrada do prédio e aproveitei para perguntar como quem não quer nada: “Qué horas ustedes suelen dormir [que horas vocês costumam dormir]?”. Quem respondeu foi a menina: “Estos días muy temprano [muito cedo, como a las 10, por qué?”.

Não acreditei muito, mas ainda assim abri o jogo e falei que todas as noites ouço fortes barulhos. “Yo no escucho [eu não escuto nada], tú oyes algo, amor [você escuta algo, amor]?”. Ele também disse que não.

Comecei a questionar se eu não estava maluco e ouvindo coisas que não existem. Deixei o celular do lado, quando os gemidos começassem, eu colocaria para gravar e assim mostrar a todos, porque não dava mais para suportar. Já um tanto neurótico, achei que tinha escutado algo e sai no corredor, decidi que ia de porta em porta.

No meio da minha neurose, uns inquilinos chegaram e acharam estranho eu naquela hora andando perdido pelo corredor. “É que um casal está transando na maior altura e eu tô tentando descobrir quem são, porque já tem uns quinze dias que eu não durmo direito. O barulho vem lá de cima, vocês nunca ouviram?”. Responderam que não e me pediram mais detalhes do que é que eu escutava.

“Gemido de p* , já sabe,a noite toda. Uma mulher que transa feito uma cabra louca [expressão do espanhol], podia ser atriz de filme pornô, eu vou gravar a putaria quando ouvir de novo e mostro pra vocês”. A mulher respondeu: “Mostra assim, fiquei curiosa agora em saber quem é. Que chisme [que babado]!”.

Deu meia hora e voltei a ouvir os gemidos em alto e bom som. Aí me veio um insight, fui até o fundo do prédio, onde vivia esse último casal de inquilinos e finalmente matei a charada. Sabia que depois de ter xingado a mulher para ela própria, a situação ficaria muito chata, porém melhor assim do que a continuação dos escândalos. Bati na porta e briguei: “São vocês mesmo!”.

Havia uma tubulação entre o banheiro deles e o meu, por isso somente eu é que os ouvia. Voltei ao quarto e dez minutos depois, escutei o homem vomitando. Não sei se foi pelo constrangimento da minha interrupção, mas pareceu que sim. O fato é que nunca mais a mulher fez o show pornô fonográfico, e nenhum dos dois voltou a falar comigo. Nas poucas vezes que os encontrei no corredor, nós três abaixávamos a cabeça.

Foi o perrengue mais bizarro que passei até hoje.

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