Crítica Literária – (Além do) Resumo do Livro A Hora da Estrela

Crítica Literária – (Além do) Resumo do Livro A Hora da Estrela

Hoje em dia, o nome de Clarice Linspector é relacionado a frases de autoajuda no Facebook, o que provavelmente está fazendo a escritora se remexer no túmulo desesperadamente, já que os seus escritos não tem nada a ver com essa filosofia barata de autoestima. Assim sendo, muitos estudantes ficam então chocados ao lê-la pela primeira vez no terceiro ano do ensino médio, ou durante um cursinho, visto que Linspector é uma das autoras mais recorrentes nos vestibulares da vida.

E é justamente por isso que está no ar o (Além do) Resumo do livro A Hora da Estrela, sua obra mais famosa.

Resumo Comentado

A história contada – aparentemente – é sobre Macabéia, uma nordestina tão pobre que só come cachorro-quente e Coca-Cola, ou seja, praticamente eu quando viajo para países caros. A coitada não tem beleza, não tem saúde, não tem graça, resumindo, mais azarada que Betty, a Feia. E para piorar, é burra igual uma porta. Todo o mundo passa a perna nela.

A_Hora_da_Estrela resumo livro

Vive numa pensão no Rio de Janeiro, onde divide o quarto com um monte de mulheres e trabalha como datilógrafa, porém é a funcionária que menos recebe, isto porque a bichinha é porca, desleixada, só continua no emprego por pena do seu patrão Raimundo e porque se sujeita a ganhar abaixo do salário mínimo. Quem trabalha com ela é Glória, uma periguete “gostosa pra caramba” com pós-graduação em sacanagem, e que tem mais autoestima que Nazaré Tedesco, totalmente o contrário da alagoana.

Apesar da falta de estudo e de malícia, como boa brasileira, Macabéia dá o golpe do atestado médico dizendo que teve que arrancar o dente, e passa um dia de folga, no qual ela aproveita para dançar feito doida no quarto sozinha, ouvir a Rádio Relógio que é o seu hobby, e fazer um passeio sem destino que acaba lhe apresentando Olímpico de Jesus, um paraíbano que de Jesus só tem o nome, porque é mau caráter de carteirinha. Furta os colegas de trabalho, e pelas entrelinhas, entende-se que já matou uma pessoa.

Olímpico se torna seu namorado e redefine o conceito de relacionamento abusivo. Pense num homem ignorante. Além de grosseiro com ela, é mão de vaca no último volume. Imagine que em um dos encontros do casal, ele se oferece a pagar um café para namorada, mas com a condição de que se ela quiser com leite, terá que pagar a diferença. A idiota ainda agradece achando que isto foi uma grande “bondade”.

Mesmo sendo um péssimo partido, Glória rouba o namorado da colega, o que não foi difícil de fazer, já que este estava com Macabéia até então porque não havia aparecido alguém melhor. Sentindo-se mal por ter furado os olhos da amiga, Glória a convida para comer em sua casa. A alagoana tira a barriga da miséria com tanta vontade que depois se esforça para não vomitar, já que considera desperdício botar pra fora o chocolate e outras delicias que comeu.

Aconselhada pela periguete, Macabéia vai se consultar com Madame Carlota, uma vidente caloteira que se diz “fã de Jesus, doidinha por Ele”. Na cartas, ela diz à cliente que ela será feliz, encontrará um homem rico que cairá de amores por ela. Feliz da vida com o que ouve, a pobre menina de 19 anos sai do recinto e distraída acaba sendo atropelada. Antes de morrer, ela ainda se orgulha de ter sido vítima de um carrão top e não de um fusca.

resumo a hora da estrela

Esta é a narrativa mais óbvia do livro, porém há outras duas tramas se desenvolvendo em paralelo. Rodrigo S.M assume logo no início que está escrevendo sobre a personagem fictícia chamada Macabéia porque um dia andando na rua viu uma moça nordestina com olhar desesperado, o que lhe deu a inspiração para criar o romance.

Nos intervalos do narrar sobre a protagonista,  Rodrigo acaba revelando muito de si, fazendo então uma espécie de autobiografia, ou seja, mais do que acompanhar a história da azarada, de certo modo, o leitor acompanha o desenrolar de um período da vida desse que se diz autor.

E para finalizar, a terceira trama é sobre o ato de escrever, isto é, a história da elaboração de um livro, mais ou menos como um documentário dos bastidores, algo que se assemelha muito ao que Machado de Assis fez em Dom Casmurro, e o que Graciliano Ramos fez em São  Bernardo. O resumo deste último enredo é: “vou começar a escrever um livro, estou tendo dificuldades e dúvidas para desenvolvê-lo, consegui escrever mais, finalizei a obra. Fim”.

Resumo Visual

Um material que pode ser bastante útil para quem busca mais domínio sobre A Hora da Estrela, é assistir ao filme homônimo dirigido por Suzana Amaral e protagonizado por Marcélia Cartaxo, atriz que conseguiu com louvor viver Macabéia, tanto é, que ganhou diversos prêmios, inclusive na Alemanha. A atuação dela é realmente fantástica. E quem também está no elenco é a grande Fernanda Montenegro, única atriz brasileira a concorrer ao Oscar.

É preciso ressaltar, no entanto, que o filme elimina as outras histórias do livro, debruçando-se realmente apenas na storyline da alagoana. Abaixo, você pode assistir à essa adaptação cinematográfica.

Por que Tenho que Ler Essa Tragédia Insossa na Escola e no Vestibular?

A Hora da Estrela foi a última obra publicada em vida de Clarice Linspector. Lançada em 1977, o estilo apresentado foi o mais maduro da autora, ou pelo menos considerado o de maior fôlego, mesmo sendo um romance de poucas páginas. Dá para ler em 2 ou 3 horas, o que não dá para fazer é entendê-lo completamente.

Muitos professores trabalham o livro na sala de aula a partir da denúncia social que a trajetória de Macabéia suscita, porém –  ironicamente – a trama de “Macá” é o que menos importa. O que de fato faz esta leitura ser obrigatória é antes de tudo o modo como as três tramas se unem através do fluxo psicológico, isto é, o texto é composto como se um turbilhão vazasse da cabeça sem tempo de ajeitar as ideias em formas certinhas, sejam elas gramaticais ou literárias.

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Dito de outro modo, o texto se constrói no quase absoluto caos. As três histórias formam uma favela e não uma cidade planejada. O leitor então é convidado a explorar este terreno caótico, a fim de encontrar os muitos sentidos que nele habitam.

Fazendo parte da chamada terceira geração modernista, a obra questiona a geração anterior ao sugerir que a denúncia social mais do que simplesmente exposta, precisa ser sentida pelo leitor, e isso só seria possível através de uma estética literária indigesta, algo mais parecida com poesia do que prosa.

A Hora da Estrela é um terço prosa e todo o resto é uma poesia no sentido estético, desencantada, sem floreios, paradoxalmente, uma simplicidade das mais complicadas. Em suma,  um texto que exercita o cérebro do estudante a decodificar outros textos, seja de cunho textual, uma vez que há muita metalinguagem, ou de qualquer outro assunto, espera-se  que aluno ao menos tenha contato com uma escrita desta envergadura e  capacidade  de desvendá-lo o mínimo possível.

De  mais a mais, trata-se de uma faceta da identidade brasileira,  um diálogo com obras do imaginário artístico e linguístico do país, ou  seja,  em um só texto está incluído um  mundo cultural, político, histórico, econômico,  antropológico,  literário,  psicológico…  Tá pouco ou quer mais?

O  (Além do) Resumo do livro A Hora da Estrela  ficar por aqui, e se lhe ajudou de alguma forma,  eu encarecidamente peço que curta o blog no Facebook, pois estes posts sempre me dão um trabalho do cão, já que são imensos. Vejo você na próximo.

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