Cinema – Jogo Perigoso: Stephen King na Netflix

Cinema – Jogo Perigoso: Stephen King na Netflix

A Netflix lançou recentemente o filme Jogo Perigoso, baseado no livro Gerald’s Game, do escritor Stephen King. O argumento é bem intrigante: um casal vai passar o fim de semana longe de todos, a fim de apimentar a relação. Tendo fantasias sexuais um pouco sadomasoquistas, o marido prende a esposa na cama com algemas e logo em seguida morre de infarto fulminante. Inicia-se então um aparente enredo de sobrevivência.

À primeira vista, se não fosse pela fotografia, a qual até parece filtro de Instagram, tem-se a impressão que se trata de uma adaptação filmada nos anos 90, pois o tom, enquadramentos e o ritmo lembram muito aqueles thrillers que costumavam passar no Intercine da Rede Globo. Provavelmente, o diretor optou por este estilo devido ao fato de que a obra original foi publicada em 1993.

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A  escalação dos atores protagonistas dão a ideia de que estamos a ver um produto de baixo orçamento, já que Carla Gugino e Bruce Greenwood não são nomes de grande relevância em Hollywood, na verdade a imagem de ambos é bastante atrelada a coadjuvantes de filmes B. Aqui, porém, eles têm a chance de brilhar, e o fazem, embora de forma modesta.

No geral, tecnicamente falando, Jogo Perigoso parece um episódio estendido da série Room 104, ou seja, tem qualidade, até flerta com a excelência, mas nunca chega lá. E não chega porque o final compromete o resultado. Na ânsia de encerrar sem deixar pontas soltas, a conclusão é feita na velocidade da luz, tornando-se rasa, terrivelmente expositiva e sem emoção… É um verdadeiro atropelamento narratológico.

Apesar, no entanto, destes erros de cunho estético, o importante é que a mensagem do conteúdo é transmitida. Para quem já viu e não entendeu, segue a explicação com alguns spoilers nos parágrafos abaixo. Esteja avisado!

Entendendo Jogo Perigoso (Gerald’s Game)

Assim como em qualquer texto literário que se preze, a história principal é apenas uma representação de outros discursos. As algemas que prendem a personagem Jessie são uma alegoria do assédio sexual sofrido por ela – aos 10 anos de idade – através do seu pai. Quem sofre algum tipo de abuso na infância, por menos invasivo – fisicamente – que seja, geralmente vai se lembrar disso para o resto da vida tal qual uma condenação.

Conheço três pessoas que passaram por isso, e elas só me contaram após anos de amizade, e ainda assim com muita dificuldade. Para Stephen King, é justamente esta relutância em falar que faz com que a vítima se sinta presa ao ponto da sua personalidade ser pautada – mesmo que inconscientemente – por esse trauma.

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O único meio de sobreviver a isto é se libertando, porém a libertação é dolorosa, assim como no caso de Jessie que teve que dilacerar sua mão para se ver livre. Esta cena, que é a mais forte do filme, representa a difícil tarefa de reviver o passado, assumir o que aconteceu, denunciar o criminoso. Ou a vítima encara esse pesadelo, ou então irá morrer aos poucos.

No final, depois de  abrir um centro para ajudar pessoas contando a sua história, a viúva se tornou forte o suficiente para encarar o monstro. Tudo então termina com ela dizendo ao serial killer (a personificação do seu trauma) que ele não é tão assustador como o imaginava. E sem medo seguiu mais confiante de si.

Só pela lição de moral, o livro e o filme já valem a pena.

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