Conto – A Menina que Foi Estuprada

Conto – A Menina que Foi Estuprada

Quando fundado oficialmente em 2003, o bairro Novo Brasil não tinha mais que 10 casas, era na prática apenas um descampado periférico de Piritiba, cidade do interior da Bahia que nesta época não possuía sequer 20 mil habitantes. O Seu João da Enxada, juntamente com a esposa e suas quatro filhas, fora um dos primeiros a erguer sua moradia por lá.

O apelido veio da frequência com que ele capinava os terrenos que por ali eram comprados. O lento crescimento do Novo Brasil fez com que em 2006 tais bicos se tornassem sua principal fonte de renda, enquanto o Bolsa Família servia como complemento. Depois de casar as três filhas mais velha e perder a esposa por um câncer de mama, sobrou-lhe a caçula debaixo do teto, mas esta também não carecia ser sustentada, pelo contrário, cada vez mais se desenhava um cenário no qual ela é quem o sustentava, já que a força do pai se encontrava em natural declínio.

Desde os 14 anos, essa menina se virava financeiramente indo de porta em porta tirar as cutículas das madames do município. Agora com 19, fazia unhas e cortava cabelo com carteira assinada no único salão de beleza que trabalhava na legalidade. Seu João morria de orgulho.

“Se Lula te conhecesse, ao invés de Dilma, ele botava é tu de candidata”, elogiou após pedir e receber da filha 10 reais para se distrair no bar. “Esse semana, se aparecer, vou pegar mais serviço”, e ela prontamente se mostrou contrária. “Não tem necessidade. Aceite só o que dê pra fazer, nada de se matar debaixo do sol. Senão, depois adoece e aí que é pior”.

Não havia como discutir, a precoce maturidade da menina era puro empoderamento, e tal emancipação psico-social se fazia visível em todos departamentos. Não por acaso, muitos se incomodavam com a confiança genuína e o espírito livre que ela exibia. Sempre dizia que se não fosse pelo pai, a quem “ama de paixão”, já estaria em São Paulo, Piritiba era muito pequena para o tamanho dos seus sonhos. “Tu teria coragem mesmo?”. “Oxe?! Mas é claro. Não tenho medo de nada nessa vida”.

Na altura em que disse isto era verdade, porém as coisas mudaram num dia em que voltando para casa, às 7 da noite, alguém lhe pegou por trás tapando sua boca; “se tentar gritar, eu te mato”; e a arrastou para dentro de uma construção. O medo nunca antes sentido lhe paralisou num primeiro momento a ponto de perder a voz, o instinto, no entanto, deu sinais quando o homem tentou desabotoar o micro-short que ela usava.

Foi então que recebeu o primeiro murro, no rosto. Ficou atônita até sentir que ele estava quase conseguindo, debateu-se e veio o segundo murro, desta vez no estômago. Ainda sem respirar, o seu sexo foi violado. O desespero se fez como se estivesse se afogando no pântano mais sujo do mundo.

Agarrando um tijolo no chão de terra, tentou golpeá-lo, mas sem força suficiente o tiro lhe saiu pela culatra, tomando-lhe o tijolo, o estuprador a acertou com o mesmo e o que se seguiu foi o ápice do pior dos pesadelos. Duas horas mais tarde, um casal de adolescentes entrou na construção com segundas intenções e a encontrou inconsciente.

Foi um evento abominável para todo o bairro, e pela manhã a cidade inteira estava a par da menina que foi estuprada. Não se falava em outra coisa. Como diz o ditado: cidade pequena, inferno grande. “Mas também ela usava uns shortinhos que mostrava a bunda toda”. “Que pena que eu fico,viu. Novinha, né?”. “Será que era virgem?”. “Virgem ali só se for o signo”. “Vou fazer uma visita a ela”. “Eu já vi ela saindo com o filho de Ademir Padeiro”. “Quem vai querer casar agora com essa menina?!”. “Assim, sem querer falar, mas o comportamento dela não era dos melhores. Muito periguetizinha”.

Foi sem um dente e sem nenhuma dignidade que ela saiu do hospital. Não era mais um ser humano, era um destroço. Não queria mais sair de casa e nem ficar sozinha, porém tampouco aceitava todas as visitas, não gostava de ser visitada por quem não era da família. Não havia um dia que não fosse de choro. A vida passou a ser uma eterna negativa para a felicidade. Descobriu-se grávida. Deveria ter tomado a pílula do dia seguinte, pensou consigo. Não tomou porque já estava péssima o suficiente naquele momento. Pela lei, teve apoio médico para o aborto.

Violada em tantas diferentes maneiras, cogitou se matar inúmeras vezes, mas pensava no pai, não podia lhe dar mais esse desgosto. A preocupação fazia sentido, o velho perdera ao menos duas décadas com tudo isso. Sob o sol de fevereiro no sertão, infartou enquanto capinava.

A menina que foi estuprada não tinha mais dúvidas, daria cabo da vida assim que descobrisse qual seria a melhor maneira. Na Lan House, pôs-se a pesquisar no Google até que ouviu a voz de um dos meninos que estava jogando vídeo game. “Agora tu vai ver, eu te mato”, disse o de menor de 1,86 de altura ao amigo com quem disputava.

Não foi pelo conteúdo da frase proferida, e sim pelo timbre da voz que ela reconheceu o seu algoz. Petrificada, esforçou-se para não desabar, levantou-se discretamente e enquanto pagava o tempo usado, por acaso, os olhares dos dois se cruzaram. A reação dele o denunciou irremediavelmente culpado. Não sabia o nome dele, mas sabia quem eram os seus pais e onde ele morava, apenas 900 metros da sua casa.

O moleque de 17 anos voltou pouco antes do pôr-do-sol e foi só passar pelo portão que a campainha tocou. Deu meia volta automática, reabriu o portão e não teve tempo de mais nada, ela o acertou no rosto com a enxada do falecido pai, capinou-lhe a cara até não restar cabeça. Pela barbaridade do assassinato, o juiz lhe condenou a 27 anos, mas existe grandes chances de sair bem antes por bom comportamento.

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