TV – A Influência das Novelas Violentas na Colômbia e o Porquê Delas Terem Acabado

TV – A Influência das Novelas Violentas na Colômbia e o Porquê Delas Terem Acabado

Uma vez na Colômbia, eu fui ao instituto no qual trabalho como professor para receber o salário e a coordenadora me chamou a atenção porque eu não estava cadastrado num seguro que é obrigatório. Ela então me passou o endereço de onde eu deveria ir para me cadastrar e pediu que eu esperasse a secretária imprimir meu contrato, sem o qual não poderia fazer o cadastro. Como eu estava com pressa, falei que voltaria no dia seguinte e fui embora.

Algumas horas depois, no meio da aula da tarde, uma aluna atendeu o celular e repassou a notícia para a classe de que uma bomba havia explodido, e acreditem, justamente no endereço que eu devia ter ido mais cedo.

A coincidência, o peso da palavra bomba e a reportagem que vi rapidamente no G1 me deixaram com muito medo. Entretanto, assim que me informei exatamente do que havia ocorrido, dei-me conta do exagero promovido pela mídia internacional. Na visão dos nativos, os meios de comunicação gostam de taxar a Colômbia como um lugar violento, pois é a imagem que vende, mesmo não sendo verdadeira, afinal, os índices de criminalidade do país diminuíram drasticamente, sendo hoje um dos mais seguros da América do Sul.

Mas se é assim, porque a má fama da Colômbia continua? É neste momento do debate que entram as novelas. Quando Betty, a Feia estreou no final de 1999, o país estava completamente dominado pelo poder paralelo. A insegurança era extrema, o que acabou ajudando a fazer de Betty um grande fenômeno, pois a população queria ver na TV algo que lhe fizesse esquecer da violência em que viviam.

Betty a feia novela

Em um artigo no meu blog, conto detalhadamente como a Feia ajudou a Colômbia a acabar com a guerra que quase acabou com o país (clique aqui para ler). O sucesso mundial da produção aumentou a autoestima do colombiano e propiciou uma trégua de seis meses com as Farcs, o que deu ao presidente da época a possibilidade de realizar uma revolução na segurança.

Em 2008, já dispondo de um quadro pacífico, foi lançada na Colômbia a primeira novela a ter como tema o narcotráfico de modo direto: El Cartel de los Sapos. O êxito foi tanto que outras produções com a mesma temática vieram, surgindo assim um novo gênero folhetinesco: as narco-novelas.

Com o sucesso de tais tramas comprovado, a Telemundo dos Estados Unidos entrou no embalo, tornando-se uma parceira de peso e levando ao grande público latino esta espécie de folhetim. No México e demais países, as narco-novelas parecem ser vistas como entretenimento, mas na Colômbia estas produções geram enormes polêmicas. Como um país que quer deixar de ser visto como perigoso pode produzir e exportar novelas sobre seus criminosos mais sanguinários?

Em 2012, por exemplo, foi lançada Escobar: o Patrão do Mal, novela que contava a vida daquele que chegou a ser o maior traficante do mundo. Logo na abertura, com a intenção de justificar sua realização, aparecia a seguinte mensagem: “Quem não conhece sua própria história está condenado a repeti-la”. Isto porém não foi o suficiente, muitos acusaram a novela de glamourizar a criminalidade e incitar a violência.

Se quiser causar uma saia justa com algum ator colombiano, basta perguntar sobre o que ele acha das narco-novelas; cria-se uma encruzilhada, pois se criticar pode ficar sem trabalho e se falar bem pode ser considerado um vendido, ou o que é pior, um analfabeto sócio-político. No meu papo em off com a atriz Dora Cadavid, a Inezita de Betty, a Feia, ela criticou sem medo esta moda dos folhetins baseados em criminosos.

De 2008 pra cá, a violência cresceu um pouco e acredito que as narco-novelas tenham sua porcentagem de culpa, ainda que pequena. Diferente de Betty, a Feia; que elevou o nome do país, obras como Escobar prestaram um desserviço. Começa-se agora a tomar consciência disso. O curioso é que o desgaste nesse tipo de produção parece ser inevitável com o tempo.

Vejamos o caso das novelas violentas da Record. A emissora de Edir Mâcedo parecia ter encontrado a fórmula do sucesso: tiro, porrada e bomba. Com o tempo a audiência de tramas tão tensas foi diminuindo. A reprise de Vida Opostas, por exemplo, foi um fracasso além do que podia ser imaginado.

O mesmo ocorreu com a audiência na Colômbia. Talvez seja por sentirem o reflexo negativo das narco-novelas, que os colombianos já dão mostras de que não querem continuar vendo bandidos representados na TV como herois, cheios de dinheiro e poder. Nos meus últimos meses lá, já não era produzida nenhuma narco-novela, e sim novelas-biográficas de pessoas que foram de alguma forma bons exemplos neste mundo, como: Diomendes, Celia Cruz, Las Hemanitas (duas irmãs cantoras, tipo Simone e Simara), a freira Laura e a última que eu soube foi a respeito de um maestro de música clássica.

Saiba mais sobre este novo estilo de novela clicando aqui.

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