TV – Machismo, Racismo e Solteirismo nas Novelas Refletem a Realidade do seu País

TV – Machismo, Racismo e Solteirismo nas Novelas Refletem a Realidade do seu País

A origem do folhetim televisivo está nos textos do romantismo, corrente literária que a gente estudou lá no primeiro ano do ensino médio. Se você leu autores românticos como José de Alencar, Camilo Castelo Branco, vai lembrar que o amor nestas obras era fatal, se ele podia se concretizar todo o mundo terminava feliz, mas se o amor era de fato impossível, o casal ou morria de desgosto ou se matava.

Essa síndrome de Romeu e Julieta difundiu a ideia de que a vida só vale a pena se você puder viver um grande amor. E acho que é também por isso que surgiu um preconceito na sociedade, o qual uma pesquisadora norte-americana deu o nome de Solteirismo.  Ela defende que pessoas solteiras sofrem preconceito, assim sendo, deduzo que a situação se agrave no caso da mulher, pois o solteirismo é somado com o machismo.

Voltando então às novelas, é costume que no último capítulo até as personagens secundárias se arranjem com alguém, pois terminar solteiro seria um castigo. Esse clichê pode ser visto não apenas em novelas mexicanas, pegue qualquer final escrito por Walcyr Carrasco e você verá que todos que foram bons durante a trama será recompensado com algum amor escalado de última hora, nem que seja um(a) figurante.

Isso nos mostra que o solteirismo é forte, principalmente aqui na América Latina. Porém no México, a coisa é potencializada. Se analisarmos bem vamos nos dar conta que a descriminação midiática na terra da Televisa é maior.

Enquanto que no Brasil presenciamos um crescimento no espaço do ator negro; na Argentina, a temática gay é tratada sem censura; e na Colômbia, os elencos são bastante diversificados; não há nenhum grande avanço em termos étnicos que se possa citar em relação a teledramaturgia mexicana.

Na minha entrevista com o Cirilo do Carrossel mexicano, ele me falou exatamente isto, que o negro, o indígena não tem representação alguma tanto na Televisa quanto na TV Azteca. Parece-me então coerente concluir que – num país em que a descriminação racial não apresenta a mínima redução em termos midiáticos – o machismo e outros preconceitos se mostrem mais explícitos nas produções desta pátria, como é o caso do México.

As mulheres muito independentes nas novelas da Televisa, ou são mostradas como amorais, geralmente são as vilãs, ou amarguradas. Na trilogia das Marias, por exemplo, as pobretonas da Thalia só ficaram ricas porque algum homem multimilionário entrou em seu caminho. Em Maria Mercedes, ela era maltratada pelo protagonista, e mesmo assim o quis até ele se apaixonar. Em Marimar, bastou ter dinheiro e poder sem marido, que ela passou a ser mostrada como uma mulher sem coração, vingativa e infeliz.

Na Colômbia, entretanto, novelas assim já não fazem sucesso e isso tem muito a ver com o nível de preconceito. Posso dizer sem medo de errar que dos sete países que conheço da América do Sul, a Colômbia é de longe o menos preconceituoso. E isso não é apenas eu que digo, no meu papo em off com a atriz Dora Cadavid, ela disse o mesmo.

Diferente da Argentina, onde também morei, os estrangeiros na Colômbia são tratados como reis e não ratos. Lembra quando em Betty, a Feia, o francês apareceu na Ecomoda e as meninas do quartel ficaram todas em cima dele? O estrangeiro é realmente tratado desse jeito. Várias vezes me deixaram entrar no ônibus sem pagar, o povo da padaria me dava pão a mais, e até vantagem no trabalho eu cheguei a ter somente por ser de outro país.

Os recentes sucessos do canal colombiano RCN comprovam que preconceitos como racismo e machismo também são bem menores do que na maioria dos países vizinhos. A novela Diomedes trata de um cantor indígena e quase o elenco inteiro é composto por atores que não possuem o padrão de beleza imposto pela mídia.

Segundo Diana Nieto, uma espectadora assídua de Lady, La Vendedora de Rosa – trama que também roubou o primeiro lugar no Ibope – há muito tempo que não se fazem novelas machistas e o sucesso de Lady se deve justamente porque é a história de uma mulher que não está preocupada em encontrar um amor e sim de sustentar sua família.

Concluo por fim que as novelas – inconsciente e irremediavelmente – refletem o nível de preconceito de sua sociedade.

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One Response to TV – Machismo, Racismo e Solteirismo nas Novelas Refletem a Realidade do seu País

  1. Interessante coincidência ler este post, pois acabei de assistir uma entrevista no Conversa com Bial com Agnaldo Silva onde ele criticou o politicamente correto, dizendo que não se pode mais dizer o que pensa, defendendo uma postura retrógrada que nem deveria haver mais, visto que, os grandes sucessos de hoje facilmente encontram-se no diferencial. Com relação ao México, também me parece absurdo que clichês como os da minha infância sejam aceitos sem problema pela população, que não é representada pela mídia do país, com exceção de gangues e violência. Praticamente todos os atores são de outras etnias russa, austríaca, francesa, etc. e se casam com os poderosos e estrangeiros do país, enfraquecendo-o. Até as cenas são apresentadas com americanismos como na novela Rebelde, cujo natal sempre tinha frio e neve. De onde gente, se nem na Califórnia esse natal existe? Na Sense 8 então, a personagem gay não pode se assumir e enfrenta situações já ultrapassadas que não fazia ideia que aconteciam ainda no México! Enfim, um longo comentário de alguém que sempre pensou sobre isso, mas só agora encontra um ponto de vista semelhante! Parabéns pelo post, adorei seu blog! Viajar pelo mundo realmente abre a mente e nos torna opinativos oculares da história.

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