Séries – Black Mirror: Alegoria e Significados do 1º Episódio da 4ª Temporada

Séries – Black Mirror: Alegoria e Significados do 1º Episódio da 4ª Temporada

No post anterior sobre Black Mirror, fiz algumas considerações gerais a respeito da quarta temporada, e embora, ao meu ver, esta season seja um pouco inferior em termos de complexidade, há ainda muita profundidade crítica e alegórica, o que justifica com que cada episódio seja analisado individualmente.

Antes porém de destrinchar o primeiro programa, vale explicar o método a ser empregado. A literatura é minha formação por excelência, isto tanto no mestrado quanto no doutorado, assim sendo, ao encontrar um produto filmográfico com grande bagagem poética, é a partir do texto verbal, estrutural, discursivo e dialógico que eu o analiso. A linguagem visual entra como consequência ou comprovação do discurso.

Black Mirror se enquadra a esta categoria poética ao problematizar o seu consumo, em outras palavras, ao dificultar o entendimento daquilo que realmente diz, já que o verdadeiro discurso se encontra escondido por uma alegoria, ou se preferir, oculto pela história que serve como primeira camada.

black mirror critica 4

Robert Daly, nerd e desenvolvedor de softwares , interpretado por Jesse Plemons.

Toda e qualquer narrativa que valoriza as entrelinhas, ao invés do que está obviamente exposto, não pode ser lida de forma literal, ou assistida de maneira naturalista. Por mais real que um livro ou um filme com teor poético possa parecer, a verdade é que ele está mais próximo de um sonho do que da realidade. Então não há como esperar lógica científica de um episódio de Black Mirror, e muito menos tentar compreendê-lo nesta configuração, quando o autor, Charlie Brooker, desenvolve o enredo sobre o terreno da literatura, do sonho.

Chegando à parte mais importante desta quase aula… É o seguinte: quando a história é construída através de engenhosas alegorias e criativos códigos, o seu significado se multiplica, possibilitando assim várias interpretações e sentidos, às vezes, excedendo até mesmo aquilo que o autor tinha em mente, o texto ganha vida ao ponto de já não pertencer a quem o escreveu. Isto, no entanto, não quer dizer que qualquer interpretação seja válida.

É preciso ter um mínimo de destreza e cautela para nãos criar interpretações arbitrárias, errôneas ou coniventes a interesses ideológicos. O texto é elástico, mas pode romper se quem o analisa for longe demais, e é para não correr este risco, que tentarei fazer apenas uma análise por semana, assim posso gastar mais tempo sobre cada episódio.

Atenção: tem spoiler da primeira à ultima linha.

Interpretando o Episódio 4×1: USS Callister

BLACK MIRROR EPISODE 1X4

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a tela cortada (imagem acima) na sequência inicial com estas barras pretas e a fotografia meio estourada, como se a simulação do jogo desenvolvido por Daly fosse de fato um programa da série dos anos 70, da qual ele se assume fã xiita.

Na vida real, ele é um zero a esquerda. Ninguém o respeita na empresa, mesmo sendo um dos donos. Frustrado, antissocial e solitário, o jogo é a sua válvula de escape, é onde ele se sente vingado, importante, onde ele manda, desmanda… Só até aqui dá para perceber uma crítica a quem prefere viver no mundo virtual por não saber se portar no real.

A lista é grande: viciados em games (seja simulação, como Second Life, The Sims, ou de ação), fanáticos pelo universo de algum filme ou série, tem fã que aprende a falar o idioma criado para Game of Thrones, imagine… Pode somar também aí as redes sociais, principalmente os perfis fakes que assumem outra identidade, justamente para “viver” algo paralelo como mecanismo defesa.

Para Charlie Brooker, tal vício é tão ou mais letal que o álcool, pois pode levar a um tipo de “morte”. Na simulação de Daly, o avatar do seu sócio, James Walton, é alcoólatra, mas ao conseguir fugir do ditador, ele não aparece mais bebendo, enquanto que o outro, ao ficar literalmente preso no jogo, acaba morrendo de fome.

black mirror episodio 1

Achei que o episódio terminaria com o frame da imagem acima, mas para a surpresa geral da nação, termina com um close feliz de Nanette, o avatar da funcionária nova que causou a revolução responsável pelo trágico fim do criador. Isto é mais do que um indício de que USS Callister também está falando de feminismo, machismo, patriarquismo, entre outros ismos que tem a ver com as questões de gênero.

black mirror 4x1

O roteiro foi escrito em outubro de 2016, ano que acusações de assédios sexuais explodiram pelos Estados Unidos, endereçadas desde figuras hollywoodianas até o presidente Donald Trump. Não é à toa que a principal referência visual do epi seja Star Trek, que é um seriado americano (enquanto BM é britânico), e que tenha como título a sigla USS, que traduzindo pode significar “navio [espacial] dos Estados Unidos”.

Voltando à sequência inicial do episódio, Daly beija as duas mulheres tripulantes como se elas fossem objetos do seu bel prazer, e ninguém, incluindo elas, tinha coragem de se opor.

black mirror critica analise episodio 1

Ao vencer a “segunda batalha”, Daly tenta fazer o mesmo com Ninette, porém ela se recusa a beijá-lo, assim como também se recusa a obedecê-lo ou agradá-lo, sendo deste modo uma representação do feminismo que cada vez se faz mais forte. Ao final, Ninette prova que pode desempenhar a mesma função de comandante, e o faz sem desmerecer o resto da tripulação. Ou seja, Brooker realmente simpatiza com o movimento, enxergando-o de maneira otimista. Sem dúvidas, o final de USS Callister é o mais feliz da série.

Para além de tudo aqui já falado, caberia como uma luva ler a trama como uma sátira de Kim Jong-un, o ditador da Coréia do Norte que se acha fenomenal, enquanto o mundo o ver como uma figura ridícula…

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