Séries – Black Mirror: Análise Diacrônica do 2º Episódio da 4ª Temporada

Séries – Black Mirror: Análise Diacrônica do 2º Episódio da 4ª Temporada

Bem como eu já havia dito na crítica geral sobre a nova safra de Black Mirror (leia clicando aqui), esta season retomou e expandiu vários temas, conceitos e discursos das temporadas anteriores, assim sendo, alguns episódios precisam ser analisados de forma diacrônica para fazer sentido.

Aos que não estão habituados ao termo, eu explico: uma análise diacrônica é aquela que leva em consideração não apenas o específico produto (seja um filme, livro, episódio de série), mas também os produtos relacionados que o antecederam.

É juntando então este viés diacrônico com a configuração analítica a partir do texto – explicada por mim no artigo do episódio anterior – que eu venho destrinchar e jogar alguma luz sobre Arkangel (com muito spoiler).

Analisando o Episódio 4×02: Arkangel

Os enredos de Charlie Brooker são escritos tal e qual um conto literário, e para interpretar um conto, o começo e o final necessitam de muita atenção. O episódio inicia com uma sequência de parto, e toda sequência de parto que se preze, seja na TV ou no cinema, costuma ser intensamente angustiante, com direito a gritos de dor e muito caos.

black mirror episodio 2 arkangel

Sorriso durante o parto.

A cesárea da personagem Marie, no entanto, ocorre de maneira tranquila. A enfermeira pergunta se ela está sentindo alguma dor e ela responde que não, nadica de nada. A única exaltação da mãe acontece quando se dá conta que a criança não chorou. A preocupação neste momento é compreensível porque no nascimento, não chorar significa não viver.

Nos minutos que se segue, vemos duas coisas bastante pontuadas: 1) o cuidado da mãe para que a filha não veja imagens que lhe causem estresse; 2) o desenrolar da relação familiar. Estes dois tópicos remetem à raiz do 1º episódio da 2ª temporada: “Volto Já”. Nele, uma viúva encontrava na tecnologia um modo para não sofrer a dor do luto, enquanto que como pano de fundo se desdobrava o núcleo familiar. “Volto Já” e “Arkangel”, portanto, dão o match perfeito.

Black Mirror é declaradamente, pelo seu próprio autor, uma série sobre o que os seres humanos FAZEM (no presente mesmo) através de ferramentas modernas, e não o inverso. O “espelho negro” é uma lente aumentada, exagerada do que já somos e fazemos, e não do que seremos ou faremos.

black mirror volto já

O robô à semelhança do falecido marido.

A tecnologia entra aqui – e na maioria dos episódios – como uma alegoria. Em “Volto Já”, um robô fidedigno era o que permitia à viúva a não enfrentar o que a vida impõe a todos: o sentimento de perda. O sistema do Arkangel então é um sinônimo para a mesma intenção. Com ele, a mãe tentava evitar que a filha passasse pelos problemas inerentes à vida.

A crítica de Brooker então não me parece ser a superproteção dos pais e nem o quanto à tecnologia nos deixa dependentes, como muitos estão dizendo por aí. Obviamente, tais interpretações são possíveis e é justamente a ampla possibilidade de significados que faz a série ser tão sensacional, mas realmente o âmago do episódio passa pelos milhares de subterfúgios com os quais tentamos nos poupar de emoções indesejadas, mesmo sendo elas necessárias..

A felicidade e a perfeição são cada vez mais vistas como uma obrigação, enquanto que chorar é quase proibido. Voltamos então à alegoria exposta no início: não chorar, significa que o indivíduo está morto. No final, a menina quebra o controle (aparelho e mãe) e pega carona ninguém sabe com quem e nem para onde. Viver verdadeiramente é mais ou menos isso: uma viagem imprevisível.

black mirror arkangel analise

Quanto à direção de Jodie Foster, escalação de atores e outros pontos técnicos, tenho lá minhas ressalvas. Mas isto já são outros quinhentos. Para não perder as próximas análises, por favor, siga-nos no Facebook clicando no like, assim nos ajuda muito. Obrigado e qualquer coisa é só dizer nos comentários.

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