No post sobre o 2º episódio da 4ª temporada de Black Mirror, expliquei do que se trata uma análise diacrônica, enquanto que na resenha do episódio 1, expliquei como faço a decodificação do produto audiovisual a partir do conteúdo e da estética vistos sob o ângulo textual, uma vez que a minha especialidade é a linguagem literária.

Aos que não viram estes posts anteriores, sugiro a leitura, pois assim entenderão os caminhos que tomei para destrinchar este que é considerado o episódio mais controverso e polêmico da season 4. Adianto desde já que eu adorei e que haverá muitos spoilers. Comecemos!

Analisando o Episódio 4×3: Crocodile

O título sintetiza muito bem do que se trata a saga psicopata de Mia, uma mulher que embora de aspecto frágil, é capaz de matar em sequência várias pessoas para que uma atitude criminosa do passado não afete a perfeita vida profissional e pessoal que possui no presente.

balck mirro entendendo crocodilo

A expressão “lágrimas de crocodilo”, costuma ser entendida de forma diferente ao que verdadeiramente representa no mundo animal. Quando acusamos alguém de chorar lágrimas do perigoso réptil, no geral, queremos dizer que esta pessoa está fingindo, entretanto, os crocodilos não choram por fingimento. O que acontece é que ao devorar suas vítimas, o seu estômago comprime outros órgãos, fazendo assim que lágrimas caiam, não por dor ou remorso, mas sim por uma simples reação fisiológica.

O episódio foi recebido com bastante ressalvas pelo público por achar forçado a personagem se transformar numa serial killer do dia para a noite. A reclamação faria sentido se  Black Mirror não fosse uma série que faz críticas através de alegorias, ou seja, não pode ser assistida de maneira literal, pois se assim o fizer, perde-se o poder de significações do material, o que é justamente o grade mérito do programa.

O autor Charlie Brooker não está interessado em relatar a história de uma assassina, a trama, ou melhor, as tramas – porque neste epi são duas – servem apenas para ilustrar (em formato de parábola) uma peculiaridade da nova era em que vivemos, e que inclusive, já foi abordada na temporada anterior: a dificuldade em manter os podres em segredo.

A ordem de exibição de “Crocodile” entre os 6 capítulos e a similaridade estrutural do enredo compõem um paralelismo imediato com o 3º episódio da 3ª temporada: o “Cala a Boca e Dance”. Em ambos os casos, o que vemos são personagens indo até as últimas consequências para que seus pecados não sejam expostos. Relembrando: na história do menino chantageado, para que o mundo não soubesse do seu interesse em pornografia infantil, ele também cometia um assassinato.

black-mirror-episodio-3

Ao fim, os esforços dos dois protagonistas foram em vão. E vale a pena destacar a subversão irônica elaborada por Brooker. No caso do rapaz, ele é descoberto por um hacker, indivíduo que pertence a um grupo marginalizado, o qual vive nos “porões” das redes; e Mia, por sua vez, é descoberta por culpa de um roedor, animal que ela simplesmente ignorava a existência. O paralelismo não para por aí, ambos “criminosos” são aparentemente frágeis e à primeira vista inofensivos.

Há, portanto, uma manipulação por parte do roteiro que faz com que o espectador, nem que se seja por um momento, encontre-se na torcida pelo “pecador”, enquanto que, ainda que inconscientemente, demonize-se a tecnologia que é o que de fato tornou possível a revelação dos crimes.

black mirro crocodile

Voltando pois a falar especificamente de “Crocodile”, não era por tristeza ou remorso que os lindos olhos azuis da lânguida, branca e rica Mia choravam, por meio da alegoria de um crocodilo, ela mataria quantos mais fossem necessários.

Como Charlie Brooker tem lá seu lado sádico, fica a mensagem: você pode matar até um cego (como era o bebê), mas isto não significa que o seus maus atos permanecerão secretos. Hoje, seres considerados até piores que você, possuem as ferramentas necessárias para trazer seus podres ao conhecimento de todos.

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Categorias: Black Mirror, Séries de TV, Televisão

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