Provavelmente o episódio 4 da 4ª temporada de Black Mirror seja o menos óbvio dessa safra, e não me refiro a interpretações e significados, mas sim a história propriamente dita. É verdade que não chega a explodir a cabeça do espectador, como ocorre em San Junipero, mas merece ser visto com atenção, principalmente para transgredir os limites da trama e entender também qual é a crítica que o enredo está fazendo.

Descubramos pois as duas coisas, obviamente, com muitos spoilers.

Black Mirror – Episódio 4×4: Hang The DJ

Amy e Frank são dois solteiros que usam um avançado sistema de relacionamento, o qual aparentemente foi desenvolvido por alguma grande agência casamenteira. Além do aparelho que levam consigo para marcar encontros e determinar a duração dos mesmos, os clientes contam com uma luxuosa estrutura hoteleira. Parecem viver num resort, do qual não podem sair até encontrar o par perfeito, independente do quanto isto demore a acontecer.

Tudo o que nos é mostrado do primeiro minuto até pouco antes do final, trata-se de uma simulação de computador. Embora nenhuma daquelas pessoas sejam reais, elas foram criadas a partir de informações ou DNA – tecnologia melhor explicada no episódio 4×1 USS Calliter – de gente que realmente existe e que quer encontrar sua alma gêmea.

Não sei se você se lembra, mas havia um site chamado Badoo em que nós colocávamos vários dados pessoais e ele computava os perfis “compatíveis”. É mais ou menos o que ocorre aqui, a diferença está no método utilizado para definir o grau de compatibilidade. Ao invés de uma simples comparação de informações, o aplicativo do episódio gera 1000 simulações. Se em 980 destas simulações, o casal virtual decidisse fugir juntos, isto significava que tais perfis tinham 98% de chance de dar certo.

Como foi exatamente assim que aconteceu entre o perfil de May e Frank, os do mundo real se encontram num bar. Neste ponto então termina o epi, o espectador fica sem saber o resto, mas pelo tom otimista da derradeira cena, pode-se deduzir que o casal realmente se deu bem.

Agora: o que o autor Charlie Brooker que dizer com todo este enredo? Bom, pelo irônico título, dá para tirar algumas reflexões. Hang the Dj é uma expressão de forte ligação com baladas, discotecas, ou como queira chamar, em suma, lugares com música alta para as pessoas dançar, paquerar e beijar na boca. Quando alguém grita “Enforque o Dj” [em tradução literal], é porque ele não está cumprindo sua função de forma eficiente: animar a galera, e assim incitar possíveis casais.

O “hang” também pode ser interpretado como aposentar o Dj, já que dentro da história, em tempos ultramodernos quem faz o meio de campo para o casal não é mais os ambientes de bebida e dança, e sim as ferramentas cibernéticas. Com o final em nota positiva, entretanto, não me apareceu que a crítica seja direcionada às redes sociais e aos aplicativos de paquera, o que Brooker costuma criticar é a preferência em viver no mundo virtual ao invés do real. Acredito que seja por isso que a cena dos verdadeiros solteiros possua uma fotografia mais luminosa e atraente do que na parte da simulação.

A demonização, portanto, não é dirigida ao aplicativo, mas sim à alegoria do resort, onde ninguém trabalha e vive em prol de arranjar o par ideal. Em 2015, o filme The Lobster (O Lagosta) chegou aos cinemas com uma alegoria muito similar, ao que parece, Brooker se usou da premissa, porém imprimindo seu estilo. O espaço, embora luxuoso, é na verdade uma prisão e pode muito bem ser a representação da nossa sociedade, a qual aprisionam os solteiros e os obrigam a encontrar um par, custe o que custar, como se tivéssemos nascido apenas com o propósito de encontrar a alma gêmea.

O avatar de May já estava cansada de tantos encontros e relacionamentos, já o de Frank aceitou passar meses com uma pessoa que odiava, tais situações são bastante comuns no mundo real. Quantas pessoas não fazem o mesmo apenas para não estar sozinho?! A sociedade impõe o desespero na vida do solteiro. Às vezes nem queremos estar num relacionamento, mas insistimos em tentar, em dar uma chance a mais, simplesmente porque colocaram na nossa cabeça que este é o sentido da nossa existência.

Quando na simulação os dois decidem ficar juntos sem se preocupar com duração e definições, tudo vai muito bem, até que o rapaz começa a se preocupar com o futuro, e deixando de focar no presente, a relação desanda. Quantos relacionamentos terminam porque um dos dois (dizem que mais as mulheres) insiste em adiantar as coisas, em rotular a ligação?!  E o pior é que esta pressa em assumir o namoro, em casar e ostentar o status de comprometido, na maioria das vezes, é mais reflexo do ambiente em que crescemos do que genuinamente por desejo consciente.

No próximo post, falaremos do episódio mais odiado da season: Metalhead. Curta-nos no Facebook para acompanhar.


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