Chegamos ao episódio mais odiado da 4ª Temporada de Black Mirror. Adianto desde já que acho injusta a má avaliação que a maioria faz a respeito de Metalhead. Seguindo o método de análise já explicado nos posts anteriores sobre a série, destrinchemos o capítulo.

Entendendo o Episódio 4×5: Metalhead

 Uma das principais reclamações dos espectadores para com Metalhead tem a ver com a falta de informações acerca do espaço. O que dá para perceber é que a sociedade entrou em declínio numa espécie de pós-apocalipse. Os detalhes de tal cenário, entretanto, não são necessários, se o tomarmos como uma alegoria do mundo cada vez mais hostil em que vivemos, afinal, a proposta de Black Mirror é assumidamente esta: criar uma lente de aumento sobre o nosso presente.

Outra justificativa para a aparente falta de contexto é que, provavelmente, o mundo aqui seja o mesmo do episódio 5 da temporada passada. Para quem não lembra, em “Men Against Fire”, acompanhamos um soldado que tem como missão matar seres monstruosos chamados de “Baratas”. No meio da caçada, ele descobre que sofreu um implante para enxergar como monstros pessoas que são na verdade totalmente normais, porém, por algum motivo, indesejadas pelo governo.

Logo na primeira cena é possível fazer a ligação entre os episódios. Os personagens estão no carro conversando sobre o desaparecimento dos porcos e um deles questiona retoricamente: “que tipo de sociedade é esta em que todo o mundo tem o nariz na altura do ânus?!”. A protagonista então responde: “uma sociedade do tipo igualitária”, marcando assim que estão vivendo em tempos de segregação.

Se na season 3 eram os soldados ludibriados que matavam as castas consideradas inferiores, em Metalhead quem faz este “serviço” são os cães robôs, talvez inventados após a estratégia militar falhar, ou fabricados com o intuito de reduzir custos. Ainda vale ressaltar que em alguns momentos, principalmente quando filmados do alto, os cães parecem baratas.

Ambos episódios, em teoria, tratam pois do mesmo universo, porém partem de perspetivas antagônicas. Respectivamente, um foca no caçador e outro na caça. No âmbito narratológico, são histórias recortadas de um arco maior. Não se admire se na próxima temporada vier mais um pedaço, só não espere linearidade, afinal, a julgar pelo estilo do roteirista Charlie Brooker, ele parece mais interessado no formato de constelação do que de linha reta.

Falando agora do que excede a narrativa, o episódio sugere uma alegoria reflexiva sobre o que de fato é vital para a sobrevivência do ser humano. Pelo viés da lógica, soa inverosímil arriscar a vida para encontrar um simples ursinho de pelúcia, porém tal argumento enquanto parábola, serve perfeitamente para  lançar a questão. Num mundo devastado, o altruísmo, a esperança (ou se preferir, a ilusão) são tão importantes quanto comida e água.

O início faz o espetador pensar que eles estão procurando por remédios que aliviem o sofrer da criança, e com a revelação do final, o ursinho ganha este valor de remédio. Pena que com o pessimismo de Brooker, a missão é um desastre, e na visão dele, quando não há sequer a possibilidade de um consolo, algo que torne a vida mais leve, perde-se (para muitos) a razão de viver, justificando deste modo os três suicídios apresentados durante o episódio.

A fotografia em preto-e-branco realça a grande tragédia de não sobreviver em um mundo sem cor.

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Categorias: Black Mirror, Séries de TV

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